“Vivemos uma cultura do aplauso”

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Claudia_Sanz

Quase todo mundo tem este item na sua lista de projetos irrealizados: organizar as fotos de família. No passado, as imagens de nascimentos, batizados, festas e viagens compunham álbuns que eram exibidos às visitas e herdados por filhos e netos. Hoje, a torrente contínua de fotografias que produzimos só ganha uma efêmera visibilidade nas redes sociais. As fotos se acumulam, esquecidas, em nuvens de computação e HDs. Claudia Linhares Sanz, ex-fotógrafa profissional, pesquisadora da Pós-Graduação em Comunicação e professora da Universidade de Brasília (UNB), já foi uma entusiasta dos álbuns de família. Hoje, aos 49 anos, dona de HDs repletos de imagens não ampliadas, ela explica o abandono dos álbuns pela sociedade contemporânea como parte de uma transformação ampla: “No contexto atual, as fotografias familiares não organizam uma narrativa coesa e não têm o fortalecimento de um sentimento de família como maior objetivo. Elas estão voltadas muito mais para um sentimento empreendedor”. Líder do grupo de pesquisa “Imagem, Tecnologia e Subjetividade” do CNPq, ela explica que as fotos pessoais e familiares tornaram-se meios de adensar a realidade e intensificar o prazer do mundo real pela aprovação nas redes sociais. “Até quando vamos aderir a essa cultura do aplauso?”, indaga.

O significado e o valor das fotografias, especialmente as de família, mudou em relação ao passado? Qual é o papel dessas imagens na produção da memória familiar nos dias de hoje?

Para pensar o lugar que a fotografia ocupa na construção da memória é preciso refletir sobre como experimentamos o tempo e as relações entre passado, presente e futuro. A forma de construirmos nossas subjetividades mudou e por isso também mudou a fotografia. A partir do século XIX, quando os primeiros álbuns de família surgiram na Europa, e até a primeira metade do século XX, eles eram uma peça importantíssima para a identidade burguesa. Eram mostrados para as visitas. Os álbuns desempenhavam um papel na constituição de uma memória familiar e de um projeto de futuro. 

Por que um projeto de futuro? 

Os álbuns reúnem uma série de instantes que constituem uma memória em progressão, que tem como fundo um projeto de futuro da família. Quando o meu pai biológico faleceu, recebi fotografias da infância dele. Minha avó escrevia legendas atrás de todas as fotos. Parecia que ela estava me contando o que não pôde dizer pessoalmente. Ela tinha um projeto de memória voltado para o futuro. Você fotografa para um dia revelar, ampliar essa fotografia. E, quando você cola essa imagem em um álbum de família, esse projeto se reafirma e se reinventa. Quando essa mulher escrevia as legendas das fotos, ela reinventava o passado a partir daquele momento em que fazia o álbum. São camadas de tempo organizadas em uma narrativa progressiva: o passado retratado na foto, o presente em que se faz o álbum e um futuro imaginado, que não necessariamente se realizará.  

Interessante: por muito tempo, a palavra instantâneo era sinônimo de foto…

A fotografia moderna estava muito ligada a uma experiência de tempo calcada na figura do instante. O instantâneo fotográfico aparece como a imagem do tempo. Os álbuns de família se constituem a partir desses instantes e expressam uma experiência de tempo e de espaço associados à vida privada. Ao mesmo tempo, eles também são um pilar importante na constituição de um sentimento de família e de um projeto de futuro doméstico, que também se relaciona com o projeto civilizatório, de progresso. Nos discursos da era moderna, é patente a esperança de que o futuro trará algo diferente, necessariamente melhor. Hoje isso se enfraqueceu. Por outro lado, no âmbito da internet, o passado passou a ser muito mais acessível, só que fora de uma história linear. É possível ter acesso a todos os momentos – os anos estão dispostos simultaneamente, em uma mesma tela. Essa experiência acaba afetando a forma como organizamos a nossa memória. 

Como fica a memória em tempos de redes sociais? 

Se antes os álbuns de família eram objetos domésticos do âmbito da vida privada, hoje não sabemos mais o que é uma vida privada. Parece não fazer mais sentido ter as fotografias dos seus filhos apenas para você mesma. Trata-se de uma mutação ampla, que se relaciona com mudanças na experiência do tempo, da subjetividade e do capitalismo. Não é possível pensar o papel que as imagens desempenham sem considerar as mudanças na lógica do capitalismo. O homem não é mais um produtor de capital a partir do seu trabalho, é ele mesmo o capital. As tecnologias da imagem possibilitaram que nos tornássemos objetos de venda permanente. No contexto atual, as fotografias familiares não organizam uma narrativa coesa e não têm o fortalecimento de um sentimento de família como maior objetivo. Elas estão voltadas muito mais para um sentimento empreendedor.

Empreendedor? Por quê?

Porque fazem parte da exigência de visibilidade. Exigência de um sujeito que empreende para ter visibilidade, mesmo que não ganhe dinheiro com isso. Este é um sujeito enfraquecido, pois seu valor está muito pautado no olhar do outro. Ao compartilhar uma imagem, a pessoa visa o prazer que é fruto da aprovação de um outro. Um outro cada vez mais invisível, porque pode ser qualquer um. Não sei se ainda faz sentido distinguir as fotografias de família de todas as outras. Elas fazem parte desse grande arsenal de imagens a serviço de uma visibilidade permanente.

Isso está relacionado à sua afirmação, em um artigo, de que é como se existíssemos na medida em que fazemos saber que existimos?

Sim. Mas essa não é uma tese minha, e sim da Paula Sibilia, uma pensadora contemporânea. Ela aponta que, quando o valor da existência de alguém se constrói a partir da aprovação do outro, a desaprovação pode ser arrasadora.

Boa parte das fotos destinadas a compor os álbuns de família eram encenadas: roupas, pose, organização dos grupos eram cuidadosamente pensadas. Não acontece o mesmo hoje nas redes sociais, em que os internautas escolhem os melhores ângulos, posam e usam filtros para ter o melhor resultado? 

As fotos feitas para os álbuns de família eram poucas e, mesmo que fossem tiradas três ou quatro chapas, o resultado não era imediato. Hoje a relação com a imagem mudou muito: já não existe mais a ideia do instante único, nem o limite do filme. Por exemplo: uma fotografia borrada às vezes era incluída em um álbum porque revelava toda a força do momento registrado. Ela não era perfeita, mas representava a importância de um certo instante.  Hoje as pessoas fazem uma série de cliques, que são imediatamente compartilhados. Uma das minhas alunas está fazendo uma pesquisa bem interessante sobre os museus “instagramáveis”. São lugares montados para que as pessoas façam fotos.  Não tem nada a ver com os museus tradicionais, servem para que as pessoas possam produzir fotos engraçadas, interessantes. São espaços com luz, fundos coloridos, bolas enormes. E com um wi-fi bastante poderoso. 

Esses espaços são parte dessa cultura que estimula um empreendedorismo pessoal baseado nas imagens?

Sim. No fundo, nesse contexto, nosso sentimento de existir acontece a partir da imagem. Não importa se eu fui ao museu do Louvre. O que importa é se a minha fotografia do Museu do Louvre é interessante, é diferente, é legal, arrecada likes. Para “ser” é necessário ser visto de maneira performática. Tem um empreendedorismo de si que atravessa as nossas vidas e as nossas imagens. Por um lado, é interessante, pois as pessoas têm acesso a vários aplicativos, produzem coisas criativas e se divertem. Mas, ao mesmo tempo, tudo isso acontece em um espaço que tem uma dimensão de troca econômica. As redes sociais não são instituições de caridade, são empresas. A disseminação dessas imagens, inclusive as de família, alimenta esses negócios. 

Na ausência dos álbuns e de um narrador que, como a sua avó, organize e construa a história da família, ainda é possível pensar o futuro a partir das imagens do passado?

A imagem não guarda mais um projeto de futuro. Sua função passou a ser, primordialmente, fortalecer, dar mais densidade a um instante fugidio. As pessoas levam o celular para um show, para um churrasco, para um almoço de família. Talvez as pessoas um pouco mais velhas ainda pensem em fazer um álbum de família. Mas não sei se quem vai para o almoço ou um show com o celular pretende rever as fotografias que vai fazer. São tantas, que selecionar dez fotos para fazer um álbum é quase impossível.  As fotografias vão se acumulando… Eu, por exemplo, tenho milhares de imagens no meu HD. A cada final de semana produzo mais fotografias. Pretendo fazer álbuns um dia, mas nunca faço, e as fotos vão se acumulando cada vez mais. Tenho a sensação de que experimentamos um sentimento de perda de presença e que a vivência do presente está ligada à produção de imagens. A pessoa posta: “estou aqui no show”. E o fato dos outros verem e acharem legal aumenta o prazer e o sentimento de existir. 

A seu ver, essa atitude empreendedora predomina entre os mais jovens? Ainda existem fotos de família focadas no registro da vida privada?

Não sei se é uma questão geracional, pois é bem comum que pessoas mais velhas empreendam a partir de imagens continuamente. Eu tenho uma tia, por exemplo, que fica muito chateada porque não coloco as fotos dos meus filhos nas redes sociais. É quase como se eu não fosse feliz. A terceira idade é um foco de investimento comercial nessa área das tecnologias da imagem. A ideia é que a pessoa idosa mostre que é alegre, que é feliz. Ou que ela espere reduzir a sua solidão a partir dessas imagens. Mas esses processos não são uniformes, sempre há uma polifonia de experiências.

Ao mesmo tempo, encontramos pessoas jovens que se recusam a colocar fotos de seus filhos nas redes. Como entender o papel da imagem na constituição da memória e da identidade familiar? 

Essa história hoje é formada por narrativas fragmentadas, que não se organizam de forma linear e coerente.  Na Universidade, costumo traçar um paralelo com a história de “Funes, o memorioso”, um conto de Jorge Luis Borges. No conto, Funes cai do cavalo e adquire uma memória total, fotográfica. Ele fotografa mentalmente cada instante e não apaga mais nenhuma dessas fotografias mnemônicas. A partir de um certo momento, Funes para de andar e fica em um quarto escuro, pois cada caminhada pela cidade produz uma quantidade de lembranças impossível de processar. Ele já não consegue pensar, porque para pensar é necessário abstrair e esquecer. As fotografias funcionam um pouco assim: a memória familiar hoje é fragmentada, superpovoada e ao mesmo tempo rarefeita, porque não consegue consolidar-se como um projeto. Por outro lado, ela é múltipla, é mais diversa e polifônica. O problema atual é como reinventar uma economia de imagens que não esteja a serviço das lógicas de consumo.

Vídeos de crianças fazendo gracinhas costumam viralizar na internet e por vezes acabam tornando o menino ou menina uma celebridade. O que você acha disso? 

No capitalismo atual, todos são empresas que rendem lucros ou likes. A minha tia falaria: “Claudinha, besteira, que mal faz querer compartilhar a alegria de ver os filhos tão engraçadinhos.” Mas por que a felicidade que uma criança bonitinha e engraçadinha provoca precisa ser compartilhada nas redes? Por que a nossa alegria necessariamente precisa ser aprovada por centenas de seguidores? Um exemplo: na quadra onde moro, em Brasília, um menino de sete anos começou a fazer uns bonecos muito legais. O pai resolveu colocar no Youtube, fez um canal para ele ensinar como fazer os bonecos e o garoto começou a bombar. O que aconteceu? Uma empresa internacional o procurou, passou a financiar o canal e o menino  começou a ganhar dinheiro. O pai passou trabalhar menos para investir no filho. Ele tinha de acordar cedo para apagar os comentários dos haters e colocava no garoto uma máscara de superman para evitar a sua exposição. O menino precisava produzir X bonecos por mês. Toda essa relação com a criação está pautada na aprovação de um público imaginário. O que é mais interessante é pensar como todo esse empreendedorismo conduz a maneira de nos relacionarmos com os outros e com nós mesmos. É um efeito que ainda não sabemos como medir. Não entendemos direito quais são os danos disso em termos sociais. 

Assim como existe uma compulsão de fotografar e postar, existe uma compulsão de ver e avaliar as fotos alheias. Você acha que isso faz parte de um voyeurismo? Também é uma forma de afirmação da existência?

Há muitas maneiras de se fazer visível hoje. Não é só veicular imagens, é também colocar um comentário, dar um like… Usar qualquer desses instrumentos para estar presente em um espaço que parece ganhar uma autenticidade às vezes superior ao próprio espaço fora da tela. Falei sobre isso em um artigo que escrevi com duas de minhas alunas de pós-graduação, usando dois exemplos. Um é o fenômeno dos museus “instagramáveis”, a que me referi há pouco. Existem vários, inclusive no Brasil. Essa qualidade “instagramável” não se refere apenas a museus.  É possível encontrar muitos sites que orientam como tornar a sua casa “instagramável”:  cultivar samambaias, mostrar livros, de que cor pintar as paredes. O que me deixou mais surpresa é que consultórios médicos passaram a transformar a sua sala de recepção em uma sala “instagramável”. Você vai ao dentista e se fotografa. É meio cômico e parece uma espécie de desespero comercial. Mas é também um sinal de que ser “instagramável” é uma qualidade importante hoje em dia. 

As pessoas são bombardeadas de informação todos os dias. Não é justo querer não desaparecer no meio disso tudo? 

Não julgo quem coloca, mas me incomoda o fato de que vivemos uma cultura do aplauso, que é muito pobre. Essa cultura chega até à universidade, onde a visibilidade hoje é uma referência de qualidade dos trabalhos. Não é por acaso que uma forma de medir a nossa produtividade acadêmica, importante para conseguirmos verbas de pesquisa, é a citação no Google. Até quando vamos aderir sem questionar a essa cultura do aplauso, tão pouco reflexiva? Não há tempo de ler, de ver. Se o outro publicou, pronto: as pessoas aplaudem. Um grupo de pesquisa, para ser reconhecido hoje, precisa ter um site, um blog, uma página no Facebook, uma página no Instagram. Para isso, é preciso transformar as pesquisas do grupo em posts. É preciso falar da pesquisa de forma curta, direta, que seja eficiente imageticamente. Que pesquisas que ganharão os likes? Uma pesquisa muito complexa provavelmente receberá menos curtidas. 

Como você conduz a sua vida pessoal com essa questão das imagens familiares? Você disse que não usa o Instagram, por exemplo. 

Meu pai era cineasta e fotógrafo e fazia muitas imagens da nossa família. Eu remexia as caixas de fotos desde pequena. Depois comecei a fazer álbuns de família. Quando fiz 15 anos ganhei dele uma câmera Nikon e me inscrevi em um curso no Senac. Fui fotógrafa durante muitos anos antes de entrar na vida acadêmica. Então fui migrando: primeiro fiz uma pós, depois um mestrado, sempre no campo da imagem. Fui para a Alemanha no doutorado e passei a fotografar menos e pensar mais. No âmbito familiar, continuo fotografando. Se eu estiver feliz, passeando com um dos meus filhos, e sentir vontade de parar o tempo, de guardar essa memória, automaticamente tenho vontade de pegar a câmera fotográfica. Mas não posto, por todas essas análises que eu tenho feito. Acho que nos esvaímos quando temos de mostrar o tempo todo. Tenho a sensação de que ao se mostrar a pessoa acaba sendo algo que nem sabe direito o que é. Uma vez ou outra eu coloco fotos no Whatsapp da minha família para dizer que eu estou bem, que não estou deprimida, que os meus filhos estão crescendo. 

O Google, Apple e outras plataformas organizam as nossas fotos e as entregam na forma de vídeos, prontos para serem compartilhados. Essas plataformas se encarregam de construir as narrativas das nossas memórias. O que acha disso?

Estes serviços oferecem ao usuário a oportunidade de ter uma memória, já que as pessoas hoje têm tantas informações que não conseguem guardar nenhuma.  Isso se relaciona com a questão do futuro também, porque o algoritmo funciona a partir da previsão do que você precisará. Nós confiamos o nosso projeto de futuro à empresa, como confiamos os diagnósticos de antecipação. A cultura da antecipação é um big business e afeta a nossa percepção do futuro. Nossos projetos de futuro estão muito pautados nesse diagnóstico de antecipação. O algoritmo se tornou a peça principal dos oráculos atuais, voltados para pensar o que se vende, o que se compra. Certo é que eles encurtam a nossa possibilidade de inventar um futuro que seja distinto daquele que se coloca hoje.

Como você vê a relação entre o real e o virtual?

Fiz um estudo sobre uma fotógrafa agorafóbica, uma personagem real. O fotógrafo Robert Doisneau dizia que Paris era uma peça de teatro cujo ingresso era o seu tempo livre. Era preciso ter tempo livre para passear pelas ruas de Paris, entender a cidade e, eventualmente, clicar uma imagem emblemática do sentimento da cidade, do comportamento dos moradores. Isso é fundamental na fotografia moderna. Já essa fotógrafa agorafóbica clica imagens capturadas pelo Google. Ela fica em casa viajando por espaços absolutamente diferentes do globo terrestre. Não há uma relação de presença de fato, é uma presença diante de fotografias capturadas anteriormente. Quando fotografa, portanto, ela está diante do passado. É um caso excepcional? É, mas é também uma história que representa este momento. A tela também é a realidade do mundo atual. O virtual faz parte do real.

Entrevista concedida a Anabela Paiva