Despertar para o sonho

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O neurocientista Sidarta Ribeiro tem dedicado os últimos meses a fazer um convite aos brasileiros: é hora de voltar a sonhar. Resgatar o sonho que ocorre durante o sono, que raramente lembramos e quase nunca discutimos; e, de olhos abertos, tecer sonhos para o futuro. Autor do best-seller O oráculo da noite, de 2019, e do recente Sonho Manifesto, de 2022 (ambos editados pela Companhia das Letras), o vice-diretor do Instituto do Cérebro da Universidade do Rio Grande do Norte defende a valorização do sonho onírico como um caminho para aprofundar a consciência e produzir novas ideias. Afinal, ele diz, não será repetindo velhas fórmulas que os seres humanos encontrarão saídas para as crises ambiental e social que afetam o planeta. “A capacidade de imaginação está diretamente ligada à capacidade de sonhar”, afirma. Pesquisador premiado, doutor pela Rockefeller University e pós doutor pela Duke University, o brasiliense de 51 anos conjuga o fazer científico tradicional com a admiração e o conhecimento sobre o saber dos povos indígenas e tradições não ocidentais. Nos livros, cita Platão, Freud e Darwin e seus mestres de capoeira. Como o personagem do livro de Herman Hesse, inspiração para o seu nome, segue investigando a consciência. “No futuro, sonhar será clarão”, escreve ele.  

Por que você decidiu estudar os sonhos?

Os sonhos sempre foram importantes na minha vida, desde a infância. Mas não pensei em estudar este tema até muito mais tarde, quando fui fazer doutorado em Nova Iorque, em 1995. Cheguei em pleno inverno e encontrei uma turma bem adiantada, que havia começado seis meses antes. De repente, eu não conseguia mais ficar desperto. Dormia no laboratório, na sala de aula, no seminário, com muita intrusão onírica. Era constrangedor. Parecia uma fuga e eu estava chateado comigo mesmo, sentia que estava me sabotando. Dizia a mim mesmo: “Estou fugindo quando deveria lutar”. Depois de uns dois meses, com muito esforço, consegui sair dessa situação. A chegada da primavera, trazendo mais sol, certamente influenciou. A partir de então a adaptação foi muito rápida. Então eu me dei conta de que o sono e os sonhos estavam me preparando. Senti que havia adentrado um território de cura poderoso. Eu tinha uma noção da importância dos sonhos na psicanálise e entre os povos originários e fui buscar estas pistas. No campo da neurociência, naquela época, havia muita gente contra a ideia de que o sono e os sonhos têm a ver com processamento de memória, aprendizado, adaptação. Pude participar da retomada do interesse sobre esses temas. A partir de 1995, o status do sono e do sonho na neurociência mudou completamente: tornaram-se temas disputados, que pega bem estudar.

Então você foi um dos pioneiros nesta área?

Eu participei de um movimento, com um monte de gente. Fiz algumas contribuições originais, principalmente na parte dos mecanismos moleculares, como por exemplo ao descrever  o que seria um resto diurno freudiano a nível molecular. 

Resto diurno freudiano? Pode explicar? 

Na proposta freudiana, os restos diurnos são a reminiscência de alguma marca da vigília no sonho. A primeira vez que se demonstrou esse fenômeno a nível biológico foi no final dos anos 80, quando Constantin Pavlides e Jonathan Winson publicaram um estudo mostrando que os neurônios mais ativados durante o dia também são os que mais recebem estímulos elétricos durante o sono. Dez anos depois, no final da década de 90, eu trabalhava com Pavlides e outros pesquisadores e mostrei que esse resto diurno, que já tinha sido demonstrado a nível elétrico, existe também no nível molecular.  Este estudo abriu caminho para várias outras descobertas que descrevemos, como o fato de que os processos moleculares deflagrados no sono REM parecem estar envolvidos na migração de memórias do hipocampo para o córtex. Sim, eu acho que o nosso trabalho tem importância, mas muita gente veio antes. 

O sono REM – Rapid Eyes Movement – é diferente do sono comum?

Durante a noite, atravessamos, múltiplas vezes, quatro fases de sono diferentes, que perfazem um ciclo completo.  Nas fases 1 e 2, acontecem alguns sonhos, mas ambas são muito curtas, duram poucos minutos. A fase 3 é o sono de ondas lentas, durante a qual às vezes temos pensamentos, sem imagens. A fase 4 é o sono REM, quanto temos sonhos vívidos. Esse ciclo se repete quatro a cinco vezes por noite, sendo que o sonho de ondas lentas vai ficando cada vez mais curto e o sono REM cada vez mais longo.

O que é o sonho e como sonhamos?  

Quando você tem um sonho, ele reflete a passagem de atividade elétrica por certos grupos de neurônios em sequência, que representam memórias. O sonho, a rigor, é a reativação de memórias de coisas já vividas. Só que essa reativação acontece de maneira bem mais livre do que na vigília, por várias razões bioquímicas. A queda dos [hormônios e neurotransmissores] noradrenalina e serotonina e a desativação de regiões pré-frontais fazem com que a atividade elétrica percorra caminhos menos prováveis. Mas esses caminhos também têm regras de probabilidade. Se você viveu alguma situação emocionalmente marcante, é muito provável que este fato entre no seu sonho direta ou indiretamente, como alegoria ou metáfora. Por quê? Há 220 milhões de anos, nossos ancestrais mamíferos passaram a aumentar a duração do estado de sono REM. Essa duração mais longa tornou possível que situações complexas fossem representadas nos sonhos. Segundo esta conjectura, os sonhos se tornaram uma maneira de simular o futuro com base em memórias do passado, simular o que pode acontecer em função das próprias ações. É o que chamei de oráculo probabilístico.

Por que probabilístico?

Um sonho não prevê o que vai acontecer, mas pode indicar o que aconteceria se determinadas ações fossem tomadas. Que evidência temos disso? Desde a invenção da escrita, os sonhos têm sido relatados como tendo a função de oráculos, associados a premonições. A hipótese do oráculo probabilístico é uma tentativa de acomodar os relatos da Antiguidade, da Idade Média e dos povos originários com a biologia que conhecemos. A ideia é que o sonho foi selecionado positivamente ao longo da evolução dos mamíferos como uma ferramenta de previsão de futuro – mas uma previsão indireta, uma previsão em disfarce, para usar um termo psicanalítico. Uma previsão elaborada a partir de metáforas, alegorias. Isso tem a ver com a hiper associatividade dos sonhos durante a fase do sono REM. Neles, a mãe vira tia, uma cidade vira outra – Freud descreveu isso fartamente.  Esta característica confere ao sonho a possibilidade de criação do novo, de criação do futuro.  Se ouvirmos o [líder indígena e escritor] Ailton Krenak, percebemos como isto é central nas cosmologias e visões de mundo ameríndias. E como os humanos urbanos contemporâneos, capitalistas, de matriz eurocêntrica lidam com isso? Não lidam. Jogam fora.

A que você atribui isso? 

Hoje a ciência ocupa o lugar do sonho. Antes, o sonho era o farol para o futuro. Um farol incerto, mas muito sensível, com uma grande capacidade de integração de estímulos subliminares. Claro, era preciso interpretar e separar o joio do trigo. Mas, antes do predomínio da ciência moderna, os sonhos sempre foram tidos como potencialmente reveladores. Há farta documentação sobre isso. Os sonhos são capazes de criar um insight poderoso sobre algo que está acontecendo, mas que o consciente não percebe. Paul McCartney sonhou com “Yesterday”, [o químico Dmitri] Mendeleiev sonhou com a tabela periódica. Otto Loewi, ganhador do Prêmio Nobel [de Medicina] em 1936, atribuiu a sua descoberta do papel da acetilcolina na junção neuromuscular a um sonho sobre um experimento. Mas, apesar destas exceções relativamente recentes, entre Copérnico e Descartes a atitude em relação aos onírico se transforma. Descartes, que teve o impulso de criação da geometria analítica a partir de sonhos, chega ao final da vida dizendo que sonhos são ilusões e não se deve acreditar neles.

Esta mudança de perspectiva ocorreu em todas as áreas?

O lugar do sonho na criação de ideias novas não foi completamente jogado fora pelas artes e nem pela própria ciência. Mas se você disser que sonhou com o material e método de um paper, seu trabalho vai ser descartado imediatamente. Hoje, nosso farol para o futuro é a ciência. Sua capacidade de prever o futuro, que pretende ser exata e confiável, fez com que os sonhos fossem ridicularizados.  Não temos uma prática social de valorização do sonho, nem na esfera pública, nem na esfera privada. Com tanta tela, tanta luz elétrica, tanto trabalho para fazer, ansiedade, as pessoas dormem menos tempo, diminuindo a etapa do sono REM. Usam um monte de substâncias para dormir, álcool ou cannabis, que reduzem a lembrança do sonho. Então, no final das contas, a experiência está achatada, está praticamente em extinção.

O que nós perdemos com isso? Qual a importância de sonhar?

 Escrevi “Sonho manifesto”, meu novo livro, justamente para falar sobre esta questão. O mal-estar do século 21 reflete o paradoxo de termos tantos meios para transformar o planeta – tanta tecnologia, tanta ciência, tanto capital acumulado – e, ao mesmo tempo, tanta desesperança. Isso está profundamente ligado ao risco de extinção do sono e dos sonhos. Quando alguém fica uma noite sem dormir direito, vai despertar com dificuldade de lembrar o que sabe e de aprender coisas novas. Vai acordar com problemas emocionais, dificuldade de lidar com estímulos aversivos, ainda afetado pelo que aconteceu no dia anterior. Aí, vai reagir pior ao que vier a acontecer. Do ponto de vista das relações sociais, esse comportamento pode ser uma bola de neve, pois a pessoa fica irritável, pode tratar mal os demais; e os outros vão reagir, pois também estão privados de sono. Estão todos na mesma viagem das telas e do consumo, com o desejo sequestrado pelo dinheiro e pelas mercadorias. Todos viciados em shots de dopamina e cada vez interagindo menos socialmente, ou seja, com menos serotonina. 

A dopamina é estimulada pelo nosso costume de utilizar as redes sociais? E a serotonina? 

Dizer que a dopamina é produzida pelo costume de utilizar as redes sociais é pouco. Na verdade, ela é produzida, estocada e depois liberada quando o indivíduo se engaja em comportamentos que envolvem recompensa e punição. Os comportamentos orientados a objetivos, que buscam obter recompensas e evitar punições são mediados pela ação da dopamina no cérebro. E esse é um sistema que se caracteriza por um desejo infinito e insaciável. A pessoa viciada em cocaína, em videogame, em likes de rede social, está engajada em um sistema de recompensa e punição que não tem freios. Isso é bastante diferente do que acontece quando as pessoas se engajam no sistema da serotonina, praticando afeto, amor, carinho, sexo, interação social saudável com pessoas queridas e produzindo axé (um termo yorubá muito usado na capoeira, que remete à energia vital). A serotonina produz um bem-estar, um prazer, que não estão ligados a uma sensação de insaciabilidade e urgência, e sim de plenitude. E nós precisamos destes dois sistemas para viver.

A ausência de sono traz danos perceptíveis à saúde física?

Dormir mal afeta os aspectos cognitivos e emocionais e, a médio prazo, também aumenta o risco de depressão, diabetes, doenças cardiovasculares, obesidade. No longo prazo, também eleva o risco de sofrer do mal de Alzheimer – o que já foi muito bem documentado. Estamos falando de um processo de piora da saúde física e mental com implicações sociais.

Sonhar menos, ou ter menos consciência do sonho, tem impacto sobre as relações sociais? 

Na ausência do costume de lembrar e relatar os sonhos, a janela para a introspecção diminui e a pessoa tem mais dificuldade de entender os próprios medos, desejos e desafios. Ela não sabe de si e tão pouco compartilha isso com os outros. Desde o Paleolítico, os sonhos foram a mola propulsora da cultura e da coesão social, transformando medos e desejos individuais em coletivos e trazendo novas ideias para a vida em comum. Nós não inventamos coisas novas fugindo do leão, inventamos coisas novas devaneando e sonhando. Extinguindo o sono e os sonhos, estamos abrindo mão da nossa principal ferramenta de acúmulo cultural e de socialização dos benefícios deste acúmulo. Estamos, de maneira muito arriscada, renunciando à nossa principal ferramenta de adaptação nos últimos dois milhões de anos. 

O sonho que temos enquanto dormimos e o sonho da vigília – quando fazemos projetos, imaginamos situações – estão relacionados? 

Totalmente. A capacidade de imaginação está diretamente ligada à capacidade de sonhar. A atividade de imaginar durante a vigília envolve as mesmas regiões cerebrais relacionadas ao sonho noturno. É a mesma coisa, mas com intensidades diferentes: o sonho noturno é mais vívido, pois não há interferência sensorial. Interessante, é que essas regiões cerebrais também são envolvidas na empatia, na capacidade de um indivíduo se colocar no lugar do outro. Essa ferramenta não é só para uso do indivíduo, pois os seres humanos sempre viveram em grupos. O ser humano sozinho sempre foi comida de onça. E ainda é.

Mas isso não é contraditório com a sua perspectiva de que o sonho é uma ferramenta de autoconhecimento?

Não há contradição nisso. Para servir ao grupo, é preciso conhecer os próprios desejos e medos. É preciso alinhar os seus desejos aos do grupo. E, para alinhar, é preciso compartilhar, como os humanos faziam na roda de sonho, de manhã, ao despertar, ou de noite, em torno da fogueira… A primeira rede social foi a fogueira. E o que se contava ali? Os feitos. E não só os feitos da vigília. Também os feitos dos sonhos, que para as populações originárias são igualmente importantes ou até mais importantes.

Existe alguma relação entre o potencial curativo dos sonhos e os benefícios da prática de meditação?

Tanto a meditação introspectiva como a meditação transcendental, nas suas várias vertentes, trazem benefícios para a saúde física e mental. Ambas envolvem as regiões cerebrais relacionadas ao sonho, regiões que perfazem o circuito chamado de “Rede de Modo Padrão” – “Default Mode Network”, em inglês, ou DMN. Essa rede é necessária para sonhar, devanear, imaginar o que outras pessoas pensam e sentem e se colocar no lugar delas. Também é engajada durante a meditação e o uso de psicodélicos, que produzem, digamos, o efeito farmacológico mais próximo da experiência onírica e também são úteis contra a depressão e o trauma. Nos últimos 20 anos se formou uma convergência no campo da ciência, baseada em artigos publicados nas melhores revistas biomédicas, de que tanto a meditação quanto o uso de psicodélicos, o sono e os sonhos têm a ver com o bem-estar individual e coletivo.

O interessante é pensar que essas ideias são produzidas no contexto da Ciência, com uso de ferramentas como scanners e laboratórios, e no entanto apontam para outra direção.

Sim, mas não se trata de uma ciência de matriz eurocêntrica. É como Ailton Krenak disse no [programa] “Roda Viva”: “A ciência tem muitos sabores. Existem várias ciências.” Muito do que sabemos sobre psicodélicos começa nos saberes de povos originários. Generalizar é complicado, mas tipicamente, entre estes povos, não existe uma distinção muito rígida entre o sonho onírico, o sonho induzido por um psicodélico (por exemplo, a yãkoana dos yanomami, a ayahuasca dos ashaninka, dos huni kui e dos yawanawá) ou aquele que ocorre quando uma pessoa tem febre ou passa por um jejum prolongado. Existem várias técnicas ameríndias de produção de imagens que podem ou não envolver substâncias, sono, privações e dor. Ou uma combinação desses elementos, como no caso da dança do sol Lakota, onde os participantes passam por um jejum prolongado, de quatro dias. Na verdade, para os povos originários, o mais relevante é a obtenção das visões. O caminho para chegar lá pode não ser o centro da experiência.

Você disse que os sonhos podem ser benéficos para a promoção de relações de solidariedade, pois geram empatia e um estado de introspecção que podem favorecer a disponibilidade para o diálogo. Como caminhar nesta direção? Existem comportamentos e hábitos que podemos praticar?

Primeiro, é preciso haver um esforço individual para dormir bem: construir um ambiente adequado para o sono, dormir em uma hora razoável. Proteger o próprio sono. Além disso, é preciso manifestar a intenção de relatar o sonho. A pessoa pode dizer a si mesma: “Vou dormir, vou sonhar, vou relatar.” Praticar a autossugestão antes de dormir. Também é possível criar uma intenção e focar o sonho em uma certa direção. Os sonhos das dos indivíduos da sociedade ocidental moderna são sonhos sem intenção. A pessoa sonha sobre o que acontece com ela, mas de maneira passiva. No contexto dos povos originários, as pessoas vão em busca de algo, de maneira mais ativa. Vão caçar sonhos em vez de serem caçadas por eles. 

Como caçar sonhos?

Procurando respostas para uma pergunta que está na cabeça. Quando Mendeleiev sonhava com a tabela periódica, ele tinha uma intenção. Não se tratava da intenção de produzir um sonho, porque, provavelmente, não era praticante dessa arte. Mas ele tinha uma pergunta importante, candente, que guiou aquele processo.

E como lembrar dos sonhos, tão fugidios?

 É preciso ter um compromisso com o relato. Despertar e ficar quieto, sem se mexer ou falar com ninguém, e fazer o relato mais completo possível, por escrito ou em áudio. Ao longo do dia, se lembrar de mais coisas, agregar. E fazer isso cotidianamente. Relatar um sonho ao acordar manhã ilumina o mundo interior, aumenta o insight, mas é uma observação particular do inconsciente, que é muito vasto. Mas se a pessoa conseguir fazer um sonhário, um diário de sonhos, todas as manhãs, depois de algumas semanas ela passará a ter não uma, mas várias peças do quebra-cabeças. A pessoa ganha um conhecimento mais profundo sobre seus desejos, medos e desafios. Poderá perceber uma trajetória, entender o seu movimento. Isso é muito rico e produz insights. Vale a pena anotar uma série longa de sonhos, revisitá-los, comparar com o contexto da vigília e perceber: “Caramba, naquela época eu estava passando pelo momento X, e olhe que interessante, isso estava sinalizado aqui.” E o pulo do gato é sair do umbigo e se conectar com as outras pessoas, ser capaz de contar os seus sonhos para alguém que esteja genuinamente interessado. Uma pessoa próxima, que conheça o sonhador, a sonhadora. Quem pode interpretar o sonho é quem sonha; mas outras pessoas – o terapeuta, o pajé, a mãe de santo – podem ajudar a descobrir as interpretações mais interessantes. O sonho não precisa ter uma única interpretação.

Discutir sonhos pode melhorar a qualidade das relações familiares? Você adota essa prática na sua vida, com a sua família?

É exatamente aí que podemos fazer esse trabalho bem-feito: dentro de casa. É legal levar a conversa sobre sonhos para as escolas, as universidades, o ambiente de trabalho, os amigos. Mas acho que o essencial é fazer dentro do próprio núcleo familiar. Aqui em casa fazemos isso. Eu e minha companheira fazemos o esforço de registrar nossos sonhos e contamos um para o outro de manhã. Quando estamos com as crianças, todas as manhãs perguntamos a elas: “Sonhou? Conte para mim.” Muitas vezes elas dizem que não sonharam. Às vezes, porque não lembram mesmo; ou porque estão com preguiça. Mas, às vezes, se animam e contam, e é legal. Assim se criam os sonhadores, fazendo desta troca um hábito. As pessoas acham que é muito difícil voltar a colocar os sonhos no centro da vida, mas estamos falando de 15 minutos, 30 minutos todo dia. É algo que pode se tornar parte da rotina. Depois que você começa é muito fácil continuar. O problema é começar.

Você citou escolas. Seria o caso de levar a conversa sobre sonhos para esses espaços?

A educação está em crise em todo lugar. Em alguns lugares, como o Brasil, em que professores recebem um salário de fome, o sistema educacional é muito ruim. Mas em quase todo o mundo a educação tem muitos problemas. As pessoas estudam e estudam, mas no final não lembram de nada. Se fizermos um Enem com as pessoas que já ingressaram na universidade quase ninguém vai passar, porque a educação que receberam não era para durar. Eu tenho defendido a importância de trazermos o sono e os sonhos para dentro da escola. Fizemos um experimento há dois anos e publicamos um artigo mostrando que é possível dobrar a velocidade de leitura de crianças em fase de alfabetização se elas tiverem tempo para uma soneca todos os dias, depois de um treinamento específico. O tempo é muito mal utilizado nas escolas. As aulas são muito longas, repetitivas e monótonas. Precisamos de uma revolução educacional, de uma escola do futuro, com mais tempo livre. Na Finlândia, que é o país com melhor escore educacional no Pisa [Programa Internacional de Avaliação de Estudantes], as aulas são mais curtas. A ideia da escola pública integral é muito importante para o Brasil, temos de passar por esse processo.  Mas quando ela estiver disponível precisaremos usar melhor o tempo das crianças e dos professores. Temos de reservar tempo para o sono e para mais exercícios físicos; oferecer alimentação de qualidade e interações interessantes. As pessoas aprendem rápido quando há uma emoção positiva; mas não aprendem ou desaprendem rapidamente quando o que se ensina é monótono e não lhes diz respeito. Esta mudança passa, por exemplo, pelo resgate dos métodos de Paulo Freire. Precisamos pensar fora da caixinha para revolucionar a escola. Nessa revolução o papel do sono e dos sonhos será central.

E como, a seu ver, os sonhos poderiam ser incluídos nas atividades escolares?

As crianças precisam desenvolver a expressão escrita e oral. A expressão oral não precisa ser sobre algo que não tem nada a ver com elas. Vai ser mais fácil obter expressão oral de qualidade se elas falarem sobre elas mesmas. Vai ser mais fácil alinhar desejos e compreender medos individuais e coletivos em um ambiente seguro fazendo esse tipo de trabalho. Isso significa parar de achar que a escola é uma fábrica de salsichas de conteúdo. Os conteúdos serão produzidos e adquiridos quando as sociedades construírem uma escola prazerosa.

Você tem uma visão otimista do futuro? 

Eu tenho um otimismo apocalíptico. Temos todos os elementos para fazer a revolução planetária. Os meios estão dados. O capital financeiro, tecnológico, os saberes estão acumulados; e a bússola moral, que não vem nem da ciência, nem do capitalismo, e sim dos saberes tradicionais, povos originários, ainda está lá. Temos os elementos para fazer todos viverem melhor, inclusive os bilionários, que, não nos enganemos, estão sofrendo também, porque são dependentes de dinheiro e o dinheiro é tóxico. Mas este otimismo é apocalíptico porque não temos muito tempo. As crises social e ambiental irão arrombar a porta. Precisamos de uma transformação cultural rápida e  inteligente e de uma resposta da espécie humana para uma nova pressão de seleção da espécie. Quando vivíamos no mundo da escassez e não havia comida para todos, a competição fazia muito sentido: era resultado da adaptação. A partir dos anos 50 e 60, passou a haver abundância. Agora, o problema não é mais escassez de alimentos, é a má distribuição da abundância. A nova pressão de seleção é distribuir os recursos, para que possamos viver em paz. Mas ainda estamos na lógica da competição e predação e não conseguimos dar a resposta adequada, que é praticar a colaboração, a cooperação e partilha. Se as pessoas que se dizem cristãs forem cristãs, aleluia. Estaremos bem.

Entrevista concedida a Anabela Paiva