Drogas: do veneno ao remédio, um debate cada vez mais urgente

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Cogumelos alucinógenos podem ser usados para combater a dependência do álcool? O Ectasy, usado para aquecer as baladas, pode aliviar o stress pós-traumático? Quais os riscos do uso abusivo de medicamentos como os ansiolíticos e antidepressivos? Dartiu Xavier da Silveira, paulista de 65 anos e professor livre-docente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) busca respostas para perguntas como estas em suas pesquisas sobre substâncias psicoativas e dependência. Um tema que ele abraçou em 1986, quando era um jovem psiquiatra e fez um curso de especialização em Toxicomanies no Centre Medical Marmottan, na França. Psiquiatra e analista junguiano, Dartiu conjuga a pesquisa ao tratamento do uso inadequado de drogas, no seu consultório e no Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (PROAD) da Unifesp. Além disso, é uma das principais vozes no debate sobre políticas de drogas no Brasil e autor textos de formação de profissionais de saúde, como uma cartilha em que defende que a prevenção começa na infância, com a formação de jovens menos vulneráveis à dependência. Na entrevista ao Espaço Aberto, o médico alerta contra o temor relacionado a drogas como maconha e a tolerância excessiva em relação ao álcool: “As pessoas precisam deixar de ter uma visão simplista das drogas. A mesma droga pode ser um grande veneno e um grande remédio”.

Ao longo dos séculos, os seres humanos sempre usaram substâncias que alteram a consciência, alteram a percepção. O que nos leva a usar essas drogas? 

É difícil generalizar; o que cada sociedade ou pessoa busca varia muito. Alguns estão numa procura de cunho religioso. O uso de alucinógenos em rituais religiosos, com o objetivo de facilitar a aproximação de algo considerado divino, faz parte da história. No Brasil, a ayahuasca é usada em rituais religiosos, assim como a ibogaína na África e a mescalina nos Estados Unidos. As drogas também estão associadas à sociabilidade. No Ocidente, é difícil pensar numa festa sem álcool. Por quê? Porque, em pequenas doses, ele facilita a expressão das pessoas, as relações sociais. É um lubrificante social. Ou seja, o uso de drogas adquire características peculiares de acordo com o grupo, com o momento histórico. Mas está sempre presente.

Em algumas sociedades tradicionais e tribais, existem regras e rituais para o uso de drogas. Já nas sociedades ocidentais contemporâneas, o consumo costuma ser uma decisão individual, sem regras explícitas que o organizem. Isso é menos seguro? 

O uso ritual dos alucinógenos não leva a consequências danosas do ponto de vista médico e psicológico. A ayahuasca é de uso livre no Brasil, desde que em contexto religioso. Mas não é permitido levar ayahuasca para uma festa, pois o consumo da substância perde o sentido fora do contexto ritual. Eu já participei de grupos que utilizavam a ayahuasca e observei que, quando não havia um contexto ritualístico, o uso ficava desorganizado, confuso. Ao passo que, quando ritualizado, o consumo era tranquilo, leve e não problemático. Por isso, mesmo pessoas que não se interessam pelo contexto religioso se reúnem e tomam ayhuasca observando regras, inclusive sobre a quantidade usada. A atitude é de respeito; o uso continua ritualizado.

Como foi desenhada a fronteira entre a droga lícita e a ilícita ao longo da história? 

O proibicionismo começou a ficar patente no final do século 19 e começo do século 20. Uma das primeiras drogas proibidas foi o álcool. E sabe o que estava por trás da Lei Seca nos Estados Unidos? O movimento feminista! Mulheres preocupadas com a violência doméstica, causada por maridos embriagados, fizeram um movimento que foi muito importante para a implementação da Lei Seca. O uso do álcool passou a ser crime nos EUA de 1919 até 1933. Só que a Lei Seca deu errado. Os consumidores de álcool logo começaram a procurar alambiques clandestinos. E os produtores de álcool clandestino – equivalentes aos traficantes de hoje em dia – não estavam preocupados com a qualidade do produto. Produziam álcool de péssima qualidade, frequentemente misturado com álcool de limpeza, o que provocava doenças neurológicas e cegueira.  Ou seja: quem era dependente continuou sendo dependente; e muitos outros problemas de saúde surgiram em decorrência do mercado clandestino. A Lei Seca nos ensinou que proibir não resolve. Ao contrário: ao proibir uma droga, delega-se o controle desse mercado para indivíduos despreparados. Isso vale para qualquer droga, não só para o álcool.

Mas parece que essa lição não foi entendida dessa forma, já que outras drogas também foram criminalizadas depois dessa experiência mal sucedida.

Na década de 70, nos Estados Unidos, o presidente Richard Nixon lançou a Guerra às Drogas, criando medidas muito repressivas com o objetivo de desestimular o uso dessas substâncias e evitar os danos relacionados ao consumo. Foi copiado pelo mundo inteiro. Entretanto, trabalhos de pesquisadores americanos demonstraram que este endurecimento não fez com que as pessoas deixassem de usá-las e até estimulou a curiosidade de jovens e adolescentes.  Foi um desastre. Na verdade, a guerra às drogas sempre foi um disfarce para a guerra contra certos grupos sociais: a população negra americana, associada ao uso de cocaína; os mexicanos, associados à maconha; e os imigrantes orientais, ligados ao uso de derivados de ópio. No Brasil, a grande maioria das pessoas encarceradas como traficantes são negras. Cadê os brancos traficantes? Existe um viés racista muito nítido nesta repressão. Não podemos continuar reproduzindo um modelo tão perverso de política pública, que já provou ser ineficaz.

A cocaína já foi usada em remédios e até na Coca-Cola antes de ser considerada perigosa. O que faz com que o consumo de certas substâncias, antes lícitas, passe a ser proibido?

Sabemos que existem interesses econômicos por trás de uma medida proibitiva. Isso ficou bem claro no caso da maconha. Grande parte da maconha produzida não tem efeito psicoativo, é utilizada na fabricação de cordas e tecidos. A proibição da maconha serviu ao interesse de algumas indústrias de tecidos, que apostavam no nylon. Hoje está muito claro de que não são os riscos à saúde pública que causam a proibição de certas drogas. Tanto que drogas de baixíssimo risco, de acordo com estudos científicos modelares feitos pelo Imperial College de Londres e pela Universidade Johns Hopkins, nos EUA, continuam proibidas, mostrando que não existe relação entre a legalidade de uma substância e o risco que ela oferece. 

Existe uma relação necessária entre consumo de drogas e dependência? 

Muitas pesquisas comprovam que isso é mito. O grupo de pesquisa que mais se debruçou sobre este tema é o liderado por James Anthony, da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore. Ele fez estudos comparativos com grupos muito grandes sobre o risco de alguém se tornar dependente de determinadas drogas. Para cada 100 pessoas que consomem álcool, 15 se tornarão alcoólatras. Isso significa que 85% serão usuários ocasionais, recreacionais, controlados – o que comprovamos no dia a dia. Mas o que esse estudo trouxe de novo é que isso também é válido para as drogas ilegais. No caso da maconha, o risco de alguém se tornar dependente é de 9%, o que implica que 91% não se tornarão dependentes. Se formos para outros tipos de drogas proibidas, como o Ecstasy, que é o MDMA, os alucinógenos, os cogumelos e o LSD, a dependência ou os riscos relacionados a esse consumo são da ordem de 3% a 5%. Ou seja, um quinto do risco representado pelo álcool. E por que o álcool é legalizado e essas drogas não? Não é pela saúde. De todas as drogas pesquisadas pelo grupo, a que mais causa dependência é o tabaco. A cada três pessoas que fumam, uma se torna dependente. 

Muitos pensam que o uso de uma droga considerada leve pode levar ao consumo de outras, mais perigosas. O que as pesquisas revelam sobre isso?

Esse é outro mito que foi desconstruído. Uma das pessoas que trabalhou muito com essa questão foi o meu professor, Elisaldo Carlini, da Unifesp. Ele dizia que os pesquisadores faziam a pergunta errada para aos entrevistados. Ao conversar com dependentes de cocaína, heroína ou crack, perguntavam: “Qual a primeira droga que você começou a usar?” E as pessoas respondiam: maconha.  Esse meu professor refez as pesquisas, trocando a pergunta inicial por outra: “Qual foi a primeira substância psicoativa que você usou?”. E aí, todo mundo passou a responder: “álcool.” A pergunta sobre a primeira droga induz o indivíduo a nomear uma droga ilícita.Com a mudança da pergunta, os pesquisadores perceberam que a porta de entrada – se é que existe alguma – é o álcool e não a maconha. Outro dado é que a imensa maioria de usuários de maconha não migra para drogas mais perigosas ou drogas potencialmente mais danosas. O que facilita essa migração é o fato dessas drogas – por serem ilícitas – estarem concentradas na mão do traficante. Se uma pessoa quer comprar maconha, ele pode oferecer: “tem cocaína aqui, já experimentou?”. O acesso é facilitado. 

Como perceber que alguém está ficando dependente? Qual é a fronteira entre o consumo recreativo, ou consumo consciente, e o consumo dependente?

Este é o nosso grande desafio: como identificar a minoria que pode se tornar dependente? Não há uma única resposta. Eu posso ter razões A, B, C e D para me tornar um dependente de drogas. E você ter as razões X, Y e Z, que nada têm a ver com as minhas. Mas sabemos que a tendência de se tornar dependente está ligada às características psicológicas de cada um. Por exemplo, quando eu falo: “Eu gosto de tomar uma caipirinha no bar no final do dia, quando eu encontro os meus amigos, para relaxar e falar besteira”, estou descrevendo um uso recreacional de álcool. Agora, se eu falo: “Chego em casa do meu trabalho tão estressado que preciso tomar uma caipirinha”, este não é um uso recreacional. Usar por estar ansioso, deprimido, por não saber lidar com uma situação é um uso de risco, com alta chance de se tornar uma dependência. Por isso é importante o uso consciente. Muita gente fala: “se não fumo maconha, fico muito ansioso”. Se você está ansioso, tem de procurar um remédio para a ansiedade. Pode até ser um remédio à base de maconha, eventualmente. Mas não se usa maconha e caipirinha para tratar depressão, nem ansiedade. 

A cocaína também foi muito usada para estimular pessoas no ambiente de trabalho.

Sim, assim como outros estimulantes. Este também é um uso inadequado da substância. O uso de um estimulante no contexto recreacional dificilmente causará problemas. Mas se alguém começa a precisar de uma droga para trabalhar, vai usar todo dia e corre o risco de se tornar dependente. É muito mais perigoso do que fazer uso de cocaína de vez em quando, em festas. Esse é um conceito muito importante: não é a droga que é perigosa, a maneira como se usa a droga é que pode ou não ser perigosa. 

Também há pessoas que se viciam em remédios comprados em farmácias, não? 

É altíssimo o número de pessoas que se viciam em calmantes. Eu atendo dependentes de todas as drogas que você possa imaginar, incluindo calmantes, estimulantes, anfetaminas, remédios para emagrecer. O fato de uma substância ser lícita não garante que ela é mais segura. Muito pelo contrário. Às vezes, a pessoa acha que um remédio comprado na farmácia é menos perigoso. E se torna dependente.

Além dos fatores psicológicos, há alguma característica genética ou neurológica que determine a propensão à dependência de determinadas substâncias? 

Existe, mas não é uma fórmula do tipo A+B=C. Não é tão simples. O que nós sabemos é que existem algumas formas de alcoolismo que tem fundamento genético. Mas a genética não torna a pessoa predestinada à dependência. Não é uma fatalidade, é apenas um fator de risco. Se a pessoa tiver um pai ou avô alcoólatra, eu recomendo: fica de olho, pois pode ter uma bagagem genética parecida. Mas o que se herda não é o alcoolismo e sim a impulsividade, a incapacidade de controlar as coisas. 

E qual a relevância do exemplo dos pais para a dependência dos filhos?  A falta de controle do consumo de substâncias psicoativas pode ser resultado dos hábitos presentes no contexto familiar?       

Chamamos de dependência por aprendizado. Já recebi adolescentes no meu consultório acompanhados dos pais, que se queixavam: ‘Esse menino não tem controle exagera, ele usa maconha demais”. Só que depois o pai fala: “Quando eu chego do trabalho preciso de um uísque para me desligar”. E a mãe diz: “Eu não consigo dormir se não tomar um calmante”. Ou seja: essa criança cresceu ouvindo que drogas aliviam problemas.

Você tem percebido um aumento deste consumo? Em que medida situações de crise, como a atual pandemia de Covid19, contribuem para exacerbar essa atitude?

 Durante a pandemia percebemos que aumentou muito o consumo das drogas legalizadas. Um estudo que fizemos em São Paulo, ainda inédito, mostrou que houve um aumento de cerca de 25% no consumo de bebidas alcoólicas e calmantes. As pessoas estão mais ansiosas e angustiadas. Stress, ansiedade, angústia e depressão são fatores de risco para o abuso de substâncias. Alguns grupos também aumentaram o uso de drogas ilícitas. A pesquisa não mostrou um grupo mais propenso em termos de sexo, por exemplo. Também não foram feitos estudos para comparar jovens com pessoas mais velhas, mas tudo sugere que o aumento no consumo de drogas entre os jovens foi maior. É muito difícil ser adolescente na pandemia. Ser adolescente já é um desafio, mas um adolescente privado do contato com os outros é muito estressante e, é claro, é fator de risco. 

Quando a família deve se preocupar com o abuso de drogas lícitas e ilícitas por parte dos seus filhos? Quais são os sinais de alerta para a dependência?

Em geral, os sinais de alerta não são os que as pessoas imaginam. Os pais acham que o adolescente começa a dar problema quando ele é ousado, apronta muito, sai com muita gente, vai a muita festa. Isso não é sinal de risco. Ao contrário. É sinal de que o adolescente é normal. É desta forma que uma criança se torna adulta, experimentando uma diversidade de relacionamentos, com muitos grupos, vivendo muitas experiências. O adolescente de risco é aquele que não fala nada, se fecha em casa, evita os amigos e não quer sair. Os pais podem pensar que ele está protegido.  Não. Esse indivíduo está isolado de tal forma que algo vai explodir ali dentro. E aí a droga poderá ser a grande porta de escape desse jovem. Esse, eu acho, é o maior sinal de alerta.  

Muitos pais ficam bastante assustados quando descobrem que seus filhos estão fumando maconha e reagem com rigidez e proibição. Há maneiras mais produtivas de lidar com essas situações? 

Eu oriento os pais a abrir o diálogo. Mas tem de ser um diálogo de fato, em que eles estejam mais interessados em escutar o filho do que em falar o que pensam. Essa escuta cria um canal de comunicação e abre a possibilidade, inclusive, deste jovem pedir ajuda. Se o seu filho chegar em casa alcoolizado, com cheiro de maconha ou apresentando um comportamento estranho, espere passar. Não vá criar um caso ali na hora. No dia seguinte, vá conversar: “O que está acontecendo? Percebi que você está usando algumas coisas. O que você está usando?” Ou seja, tentar abrir um diálogo para receber alguma informação concreta. Usou maconha quando saiu com amigos? Isso é uma coisa. Usou maconha porque levou um fora da namorada? Já é outro significado. Está se embebedando toda hora ou tomou um fogo excepcionalmente? Ficou bêbado uma vez ou está ficando bêbado várias vezes por semana? Se os pais assumem uma postura rígida, repressiva, perdem o acesso a todas as informações. 

 Tem pais que sugerem aos filhos que fumem maconha em casa, pois é mais seguro. Isso é bom ou ruim?

Depende da família. Pode ser muito ruim. Eu já atendi casos de pais que usavam maconha e achavam que era normal que os filhos fumassem também. Só que um desses pais, que fumava maconha esporadicamente, não percebia que o filho estava dependente. Ele banalizava o uso de maconha do filho. Não é porque os pais usam ou não usam que a droga fica menos ou mais perigosa. 

Na sua opinião, há uma carência de informação os pais   e dos próprios jovens, sobre os efeitos e riscos das drogas?  

Sim. Na verdade, os conceitos que os pais têm de drogas são, na verdade, preconceitos. Uma vez fui procurado por um casal que havia internado o filho de 15 anos em uma clínica psiquiátrica como dependente de maconha. Fui avaliar o rapaz. Ele estava psicologicamente muito bem, não tinha problema algum. Ele me disse que usava um baseado a cada 15 dias. Aprofundando um pouco a história dessa família, o pai me contou, bastante orgulhoso, que o outro filho, de 17 anos, chegava em casa bêbado três vezes por semana. Eu disse a ele: “O irmão é um caso preocupante, que precisamos avaliar. Mas o rapaz que fuma um baseado a cada 15 dias não é dependente. Ele só precisa ser orientado para que não abuse de maconha.” E o que motivou essas atitudes dos pais? O preconceito relacionado à maconha, por ser ilícita, e a excessiva tolerância com o álcool, por ser uma droga legal. Precisamos falar para os pais para que parem de ficar desesperados ao saber que o filho fumou maconha, como se fosse uma fatalidade que amanhã ele estará cheirando cocaína. Desconstruir esses mitos é uma ação de saúde pública. Na época do governo Fernando Henrique, havia a Secretaria Nacional de Drogas, coordenada pelo jurista Walter Maierovich. A pedido dele, eu e um grupo elaboramos uma cartilha informativa para pais. Na época fizemos uma distribuição maciça da cartilha nas escolas. 

Existe uma gradação das drogas quanto ao risco para o organismo?  

Existem substâncias mais ou menos perigosas, mas a forma de lidar com elas é o fator decisivo. As drogas que têm características mais perigosas pertencem a dois grupos. O primeiro grupo é o dos derivados do ópio, como a heroína e a codeína – este, aliás, um medicamento vendido em farmácias. O outro é o das bebidas alcoólicas. E o fato de o álcool estar entre as drogas mais perigosas é uma boa notícia. Na nossa sociedade, ainda que o álcool seja potencialmente muito danoso, o consumo do álcool não precisa ser problemático. E essa é uma experiência que vale para qualquer droga. A questão não é atacar a droga. É ensinar às pessoas o que são as drogas, quais os riscos, o que se deve esperar e o que se deve evitar. Ao invés de ficar dizendo: “diga não às drogas”, dizer: “se você for experimentar, isto é o que você precisa saber a respeito dessa droga.” 

Nós temos uma experiência bem-sucedida em relação ao cigarro, o tabaco, cujo uso foi muito reduzido através de ações como restrição à publicidade e ao consumo em locais fechados e o aumento dos impostos.

O que foi feito com o tabaco é uma modelo de política pública bem sucedida. Foi um trabalho de informação, prevenção e redução de danos. É isso que funciona. Não é fazer discurso aterrorizante. Não se disse: “tabaco não é gostoso”. Tabaco é gostoso. Se não fosse gostoso, não haveria tantos dependentes. Não vamos negar a verdade. Vamos simplesmente alertar para os riscos. E orientar as pessoas para que elas possam fazer o uso de substâncias da forma menos prejudicial possível.

E o crack? 

O crack é uma droga muito perigosa. Mas precisamos lembrar que é um derivado da cocaína – a diferença é que é fumado. O crack é uma resposta à proibição da cocaína, uma forma de aproveitar ao máximo uma pequena quantidade. Tornar a cocaína um cristal e fumar, ao invés de cheirar, dá um efeito muito maior. Só que também é muito mais perigoso. Se as pessoas parassem com o discurso aterrorizante em relação à cocaína e investissem mais em prevenção e redução de danos, o crack não teria surgido.

Você costuma dizer que é favorável à legalização da maconha no Brasil. Por quê? E as demais drogas?  

Eu acompanhei o processo da legalização da maconha em vários estados americanos, no Canadá, no Uruguai, bem como as mudanças em países na Europa que flexibilizaram leis restritivas. Essas decisões foram tomadas a partir de muitos estudos sobre como a proibição estimula formas mais perigosas de consumo e dificulta a prevenção e o acesso de usuários ao serviço de saúde. Proibir é varrer a sujeira para debaixo do tapete. Em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, com um telefonema, em 15 minutos é possível ter um motoboy entregando droga ilícita na minha porta. Isso é liberar geral. Legalizar não é isso. Legalizar é o contrário. É tirarmos o controle desse mercado das mãos do traficante. O Estado passa a definir quanto se vende; onde se vende; que quantidade se pode comprar; quem pode comprar. Quando o Estado assume o controle desse mercado, protege-se o indivíduo. A legalização da maconha é mais discutida porque a quantidade de usuários no mundo é muito maior do que a de outras drogas ilícitas. Mas isso é válido para qualquer substância.

Como você compara o Brasil em relação ao resto do mundo, em termos de comportamento e de política pública?

Nossas políticas públicas só são comparáveis àquelas dos países totalitários. O mundo inteiro está discutindo a legalização e descriminalização das drogas há pelo menos 25 anos. Mesmo os países que não legalizaram já não criminalizam o usuário há muito tempo. Não deveríamos acompanhar Irã, Indonésia e China em política de drogas. Deveríamos acompanhar Canadá, Uruguai, Holanda, Áustria, Espanha, Portugal. Portugal descriminalizou todo o uso de drogas há 20 anos. Isso é um tremendo avanço para a melhoria da qualidade de vida da população, da saúde pública. Esses avanços é que nós temos de copiar. 

A sociedade brasileira está mais tolerante em relação à maconha?

Eu acho que a sociedade está se modificando de uma forma favorável. O tema aparece mais nos meios de comunicação, nas novelas. Há pouco tempo fui consultor de uma série na Globo em que uma médica começa a usar cocaína e crack. Existe uma preocupação social de levar esses assuntos para discussão e colocar as cartas na mesa. Esse é o lado positivo. O brasileiro tem uma característica muito positiva: a flexibilidade. Tem a capacidade de dizer: “Ontem eu pensava assim, hoje eu não penso mais. Mudei a minha opinião.” Nós não somos obsessivamente grudados às nossas concepções. Somos capazes de ouvir. E isso é único. 

Você mencionou os programas de redução de danos. Como funcionam? 

As políticas na área de drogas sofreram uma forte influência dos grupos proibicionistas. Qualquer medida preventiva é baseada na frase “diga não às drogas.” E o tratamento é “fique abstinente.” Só que grande parte dos que usam drogas não tem problemas decorrentes desse uso. E quem ficou dependente nem sempre consegue largar tudo. Os números são gritantes. Em cada 100 pessoas dependentes que fazem tratamentos, apenas um terço consegue ficar sem usar droga. A eficácia é baixíssima. Por isso surgiram os programas de redução de danos, voltados aos dois terços que não conseguiram largar a droga. Os esforços são para diminuir a frequência, a quantidade, modificar o contexto de uso. Embora o indivíduo não vá largar a droga, ele passa a consumi-la de forma menos prejudicial. E alguns estudos americanos mostraram que, a longo prazo, muitos dos que entram no programa de redução de danos se tornam abstinentes. 

Como funciona? 

É uma redução progressiva, onde se identificam os fatores de recaída e se tratam os problemas psíquicos relacionados à perda de controle. Não existe uma receita de bolo. O paciente é que vai dizer por que não conseguiu largar a droga e quando sofre recaídas. Com esse mapa é possível agir para que as formas de uso sejam as menos danosas. Na minha experiência, mais de 50% dos pacientes ficam abstinentes no médio prazo. 

Você também pesquisou o uso de algumas drogas para promover o fim da dependência de substâncias consideradas mais prejudiciais à saúde. Pode nos falar sobre isso? 

O uso terapêutico de drogas é muito comum na medicina. Os derivados do ópio estão entre as drogas que mais produzem dependência. Mas nas farmácias tem diversos derivados do ópio – morfina, codeína – que são grandes remédios. Uma mesma substância para uma pessoa pode ser um veneno e, para outra, uma salvação. É isso que nós tentamos trabalhar, por exemplo, com o uso de psicodélicos. Nós, do grupo de pesquisa da Unifesp, fizemos um estudo em que o ecstasy, ou MDMA, foi usado para tratamento de stress pós-traumático. E deu muito certo. Publicamos também um estudo sobre o uso do alucinógeno ibogaína para tratamento de dependência química. Das pessoas que tomaram ibogaína, associada à psicoterapia, 60% largaram a dependência química. Estamos repetindo esses mesmos estudos com o cogumelo alucinogênico e com a ayahuasca para tratar drogas que provocam muita dependência: cocaína, álcool e tabaco.

É difícil realizar esse tipo de pesquisa no Brasil?

Você não imagina o nível de dificuldade. É muito difícil ter acesso a substâncias como cocaína para fazer pesquisa. É preciso ter uma certificação da Anvisa de que está utilizando uma droga pura. Em geral, para ter essa pureza, é preciso importar droga – isso com tanta cocaína circulando aqui. Essa burocracia demora de dois a três anos. Vários estudantes que vem fazer mestrado e doutorado comigo querem fazer pesquisas sobre drogas como ectasy e cocaína. Mas não dá tempo de esperar a burocracia. Eles precisam mudar o foco para álcool, calmantes, drogas lícitas. O sistema inibe as pesquisas com drogas ilícitas, de tão burocrático que é. Por isso eu comecei a mudar o objeto das minhas pesquisas e decidi estudar a cocaína que os brasileiros usam. A da rua. Aí o acesso é fácil. 

O uso medicinal da maconha começa a ser autorizado no Brasil. A seu ver, este pode ser o caminho para a progressiva legalização?

Sem dúvida isso alerta para que as pessoas deixem essa perspectiva maniqueísta de que existem drogas do bem e drogas do mal. Drogas que te levam para o buraco e drogas que te salvam. Você pode ir para o buraco com uma droga de farmácia. E um óleo de maconha pode ser a salvação de crianças com epilepsia refratária. Isso não quer dizer que eu não reconheça que parte das pessoas pode ficar dependente e que quem tem história de psicose familiar não deve usar maconha nem de forma recreativa. As pessoas precisam deixar de ter uma visão simplista das drogas. A mesma droga pode ser um grande veneno e um grande remédio.

Entrevista concedida a Anabela Paiva