A moral da magreza e a pastoral do suor

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Vivemos numa cultura bulímica, que convida ao excesso, e depois exige o seu expurgo

A mãe aflita e seu filho gordinho, que sofre bullying na escola. A bailarina, muito magra, obcecada pela dieta. O homem forte, que se vê franzino; a magra, que acredita ser  gorda. São exemplos dos que sofrem o que a psicanalista Joana Novaes chama de doenças da beleza. Cada vez mais frequentes, elas são produto de uma cultura que valoriza a comida como símbolos de status, alegria e afeto, mas que também impõe uma moral da magreza, exigindo corpos ascéticos. No Brasil, 4,7% da população apresenta algum transtorno alimentar.  Aos 42 anos, pós doutora em Psicologia Médica e Social, a psicanalista carioca é especialista em transtornos alimentares e coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social (LIPIS) da PUC-Rio. Consultora da marca Dove, ela é autora de O intolerável peso da feiúra – Sobre as mulheres e seus corpos e Com que corpo eu vou? Sociabilidade e usos do corpo nas mulheres das camadas altas e populares, além de vários artigos.


Como você passou a trabalhar com os usos e práticas do corpo?

Eu comecei aos 19 anos, em meados da década de 90. Eu percebia que havia uma mudança no chamado ethos da juventude. Na graduação, resolvi fazer um estudo das academias de ginástica da Zona Sul carioca. Eu estava interessada em entender as razões que levavam moças de classe média e alta a frequentar academias de ginástica. Era magreza associada à saúde, garantida por uma dietética muito restritiva e outros cuidados corporais, tudo em um ambiente de sociabilidade. Queria compreender quais eram os discursos dominantes, que não só moldavam o corpo, mas as práticas de bem viver; o que era ser saudável. Depois eu fui olhar as academias das favelas, nas comunidades, onde encontrei usos diferentes do corpo. No mestrado, fui investigar como eram as práticas das cirurgias plásticas de cunho estético no âmbito da saúde pública. Já entendia que era um corpo de classe. 

O que você quer dizer com essa expressão?

Quando voltei a minha atenção para a questão da obesidade nas classes populares, percebi que nesse universo a gordura era associada à fartura, à ausência de miséria. Nas entrevistas em academias de ginástica, clínicas estéticas, ou plásticas particulares, as mulheres me falavam não só da vergonha, mas de uma considerável dose de sofrimento psíquico, do que elas chamavam de recheios, excessos. Nas favelas, eu me deparei com outro tipo de corpo, muito mais sinuoso, muito mais corpulento, onde a relação com a comida e os julgamentos morais eram outros. Durante o governo Lula, a comida passou a ser um bem de fácil acesso. Não era, necessariamente, uma comida de qualidade. Parte da população migrou de uma situação de privação para o sobrepeso e a obesidade. Hoje, temos taxas alarmantes de crescimento de obesidade infantil, que pulou de 8% para 14% nos últimos cinco anos. Estamos falando de uma epidemia. 

Então, a beleza corporal é cultural e varia de acordo com a classe, local de moradia, tipo de trabalho? 

Nas classes mais altas, a moral é baseada na privação. Nas classes populares, a comida é um elemento de ostentação: oferecer um churrasco, uma feijoada, coloca o indivíduo em um lugar de prestígio. Ser gordo é ser forte, farto, é ausência de miséria, num determinado estrato. Ou é sinônimo de desleixo, preguiça, vergonha, em outra classe. O que costura isso é um discurso médico. A minha pesquisa mais recente é com mães de crianças com sobrepeso, em três comunidades do Rio de Janeiro, e em três academias de classe média alta. Em ambos os grupos há uma implicação enorme das mães. A elas é imputada a responsabilidade, a culpa pela obesidade ou doença. É uma fala muito pouco empática por parte dos médicos e nutricionistas: “Mãe, o seu filho está gordo. Você está matando o seu filho! Isso é muito perigoso! Olha os prejuízos: ele não tira mais a camiseta na hora de jogar futebol, não quer fazer aula de natação, está ficando sedentário”. Pouquíssima empatia pra entender o que estava por trás.

Como as mães reagem?

 A despeito disso, essas mulheres de baixa renda continuaram entupindo de comida suas crianças. Todas relataram um passado de muita privação e miséria. E não tem nada mais atravessado pelo afeto do que a comida. As mães diziam que não queriam que os filhos passassem pela fome que passaram. Isso, sim, gera muita vergonha, muito constrangimento. Então, percebe-se que esse empanturrar era visto como amor, afeto. Os profissionais de saúde precisam fazer uma aliança com essas mães, criar uma agenda mais propositiva, do que de criminalização.

E na camada mais alta?  

Nas camadas de classe média e alta, as mulheres decidem se a criança vai se engajar no judô, na natação, na aula de balé. As crianças fazem várias atividades, são pequenos executivos. O bullying, que não é mencionado nas classes populares, passa a ser uma pauta. As mães das camadas média e alta falaram do bullying e de como exercer a boa maternidade é estar atenta a emagrecer esse filho, pelo fato de estarem excluídos. 

Os relatos de bullying em escolas são comuns; tem aparecido métodos mais eficientes de evitar que isso ocorra? 

Trabalha-se muito o racismo, a identidade de gênero… Tem coisas muito boas em curso, mas não na questão da obesidade. A obesidade não é vista nas escolas como uma questão psicológica, é vista como uma questão de saúde. Teríamos de trabalhar na formação dos professores, pra que eles conseguissem inserir dentro do programa de aula discussões sobre o valor da aparência. Lipofobia não entrou na pauta.

Quando os pais também tem uma relação complexa com a comida, isso influencia os filhos?

Esse é um aspecto que aparece mais no consultório particular. Aqui, eu atendo inúmeras mães, de todas as idades, com uma fala que, certamente, explicita muita preocupação com os hábitos dos filhos. Não come isso, não come aquilo, tem uma alimentação muito restritiva… Aí você começa a investigar. Quando vê a alimentação da mãe, ou do casal, está tudo claro: os pais são os modelos, a criança está reproduzindo o padrão alimentar da casa. Eu atendi aqui a filha de uma atriz de TV famosa. A criança tinha sete anos e nunca tinha visto um picolé ao vivo, não sabia o que era sorvete, e brigadeiro era só de mandioca ou de tâmara. Isso gera outro tipo de problema, uma relação bastante deturpada com a comida, se você entender a função da comida na sociabilidade, os atravessamentos afetivos, a história. Eu atendi uma bailarina cuja filha tinha quatro anos de idade. A menina claramente estava começando a apresentar um transtorno alimentar. 

Como foi esse caso?

Com quatro para cinco anos, a menina não comia pizza, não comia biscoito, não tomava refrigerante, nem nas festinhas da escola. Era uma mãe claramente anoréxica, mas travestida de ortorexia [obsessão por alimentação saudável]. Muito magra, com um percentual de gordura muito baixo, como é muito comum entre as bailarinas, tinha 24 anos. Só dava à filha orgânicos, leite de castanha, nada de glúten. Era uma dietética restritíssima, e ela não se dava conta de que a menina reproduzia esses hábitos alimentares. A filha ficava isolada nas festas. Não provava nada, tinha medo. Estava desenvolvendo um comportamento obsessivo. Não basta a alimentação ser saudável do ponto de vista nutricional, ela tem de ser saudável psiquicamente. Uma rigidez muito grande é denotativa de uma patologia. 

Critica-se o fato da nossa cultura incentivar o excesso de doces e outros alimentos nada saudáveis. Mas, na sua opinião, a proibição excessiva também  é nociva?

É uma cultura bulímica, que nos excita a comer em excesso, porque comer virou um bem de consumo. Da pipoca ao brigadeiro, tudo é gourmetizado. É típico de uma sociedade de consumo. E, ao mesmo tempo que nos incita a devorar vorazmente toda sorte de alimento, a cultura nos obriga a nos livrarmos desse excesso. “Você comeu, agora se arranje, lance mão dos meios pelos quais você deve se livrar dessa gordura”. Por isso é bulímica, convida ao excesso, e exige o expurgo desse excesso. 

Você costuma falar em doenças da beleza.  O que são essas doenças da beleza, na verdade? 

Primeiro, devo registrar que o termo é de um colega, Sérgio Medeiros, autor da tese de doutorado O belo e a morte. É grande a incidência de pessoas que adoecem, ou que expressam um sofrimento psíquico agudo, relacionado à imagem corporal. Imagem corporal é a imagem  da minha aparência que eu elaboro ao longo da minha vida. Está na ordem do simbólico e é, claro, atravessada por distorções. Como acontece, por exemplo, com uma pessoa que emagreceu e continua a se ver gorda. Essas doenças são sempre vinculadas aos contornos do corpo. Tem diferentes formas de manifestação: da vigorexia, ou a anorexia com o sinal trocado – o sujeito hipertrofiado, mas que se vê franzino — até a menina anoréxica, que pesa 30 quilos se vê obesa. E quando eu digo se vê, não é exagero. As próprias pessoas não atentam para o fato de ser uma percepção delirante. A anorexia, dentro desses distúrbios psiquiátricos, é o mais grave, bordeja a psicose e pode levar à total suspensão do alimento. A incidência no Brasil é quase o dobro da mundial: enquanto 2,6% da população mundial apresenta bulimia, anorexia ou come compulsivamente, no Brasil esse número é 4,7%.  Ou seja, há características da sociedade brasileira que fazem as pessoas adoecerem. Ainda que o culto ao corpo não seja exclusividade da nossa sociedade, esses números provocam reflexão.

Muita gente associa essa questão à depressão. O que vem antes, o que vem depois?  

É multifatorial. Nossa cultura favorece a incidência de sujeitos que se sentem mal em relação ao próprio corpo. Se você entende a comida como risco, surge uma nova forma de limpeza: uma ascese corporal, uma forma de purificação dentro dessa nova configuração subjetiva bem contemporânea. É um comportamento que um autor de que gosto muito, [Jean-Jacques] Courtine, chama de puritanismo ostentatório. 

Explica esse conceito?

O fundamental, para a gente entender o que é determinante na estética atual, é o fato de se responsabilizar o sujeito pela própria aparência. Jean Baudrillard chamou de “moralização da beleza”. Responsabilizar o sujeito pela própria aparência é o grande gerador de angústia, sofrimento, sensação de inadequação. De um direito, a beleza virou um dever. Dentro da ideia do corpo como capital, o puritanismo ostentatório é um projeto moral. Você se cerca de práticas corporais, de um protocolo corporal, que dignificam. Como uma pastoral do suor. Estamos falando aqui da performance, dentro de uma cultura que habilita a expor o corpo em público. 

Como movimentos como o body positive se relacionam com esta cultura e esta moral? 

O body positive e o body neutrality são dois eixos interessantes de afirmações identitárias. Ao aderir a essas ações afirmativas, as pessoas estão reivindicando a sua mobilidade, o trânsito pelos espaços públicos, que lhes é negado por olhares hostis, por atitudes preconceituosas, xingamentos. É como se dissessem: “eu quero o direito de expor o meu corpo, corpo que é o meu companheiro, que me define, e não estar sujeito a nenhum tipo de depreciação moral, a nenhum tipo de constrangimento, a falas com teor punitivo”. São movimentos de resistência, certamente, de reivindicação diante de um discurso que é bastante opressivo. E não se trata só de ser bem visto e não ser alvo de julgamentos que gerem constrangimento ou dano moral. Essas pessoas chamam a atenção para a necessidade de adequação do mobiliário, da roleta do ônibus, da cadeira na escola, do lugar no avião. O body positive afirma que o corpo que, pelos padrões, seria considerado feio, também é bonito.  Já o body neutrality, eu acho mais sofisticado, pois não faz um julgamento moral.

Como é o movimento body neutrality?

O body neutrality defende a ausência de avaliações morais, depreciativas ou positivas, do corpo. O corpo é natural e, se é natural, não deve ser passível de exclusão social e de preconceito, que geram dor e sofrimento. É natural, e, portanto, não deve ser moralizado. Os dois movimentos crescem a olhos vistos nas redes sociais. As chamadas influenciadoras plus size, por exemplo, são um bom exemplo.

Hoje você tem jovens com cabelo azul, verde e amarelo, piercing, tatuagens por todo o corpo… O  que essa adesão à modificação do corpo quer dizer? 

Temos uma crise das representações, um imperativo do imagético, em detrimento do simbólico, que faz com que o sujeito perca interioridade. Assim, ele marca o corpo, registra na pele, sua história, sua memória. Estou falando do corpo como tela, uma tela branca, em que se pode escrever — ou tatuar. A memória está na pele. Esse corpo vai sofrer mutações, e vai ter uma plasticidade que é também a momentânea. Ele é fluido, muda. 

Esse comportamento também é uma forma de afirmação da liberdade em relação aos padrões morais e de cuidado? Os pais e as famílias não tem outro jeito senão entender e aceitar as escolhas desses jovens?

A nova geração, dos 20 anos pra baixo, vem adotando o grotesco, o estranho, o esquisito como afirmação de outros valores. É uma outra ética, que gera uma outra estética. Não é a estética do que se costuma chamar de belo. E, não sendo a do que é considerado belo, é um enfrentamento, não tenho a menor dúvida. O conflito se dá, principalmente, porque os pais têm uma relação de pouca liberdade com o corpo e não se dão conta dessa fluidez. É uma extensão de como a gente lida com os bens de consumo e a tecnologia, a substituição do que é visto como obsoleto.  O corpo também é um meio de comunicar. Se uma mensagem passa a não fazer mais sentido, você apaga e sobrepõe, ou superpõe uma outra mensagem. Cobre uma tatuagem com outra. Muda o cabelo. É isso que é importante pensar, para estabelecer o diálogo na família.

É o que você recomenda aos pais que a procuram? A aceitação? 

 Sim. Eu recomendo uma mudança de postura:  em vez de ser punitivo, tentar entender o que o jovem está querendo transmitir. Qual é o sentido dessas tatuagens? O que elas dizem? Isso poderia ajudar os pais a elaborar essas atitudes dos filhos, que podem ser traumáticas para eles. Eu lembro da minha mãe, também psicanalista, quando fiz a minha primeira tatuagem: “Meu Deus! Se você for para uma entrevista de emprego, cobre isso!”. E eu falava: “Você não está entendendo. O cara que vai me entrevistar não tem a sua cabeça”. Passado o susto, ela buscou se inserir no meu processo. Dizia: “Quando você fizer uma tatuagem me chama. Eu posso ajudar a escolher”. Foi uma elaboração inteligente, astuta. Então, quando vejo que  é possível, faço essa sugestão aos pais dos jovens que atendo. 

Mas ainda existem padrões de beleza? 

Existem discursos. Você ainda tem um discurso muito forte, maciço, sobretudo da  mídia. Juventude e magreza ainda são valores fortíssimos, se impõem, mas não afetam da mesma forma todas as gerações. Você vê um pouco mais de liberdade. E multiplicidade. Na rede, você vê claramente os agrupamentos e o acolhimento do que a poderia ser chamado de estranho. Até as crianças, que pintam o cabelo colorido… Para elas, é uma brincadeira. Nisso, a família não tem mais controle. O corpo é a plataforma por excelência pra afirmação identitária, em qualquer geração. Mas essa geração faz do corpo uma tela de arte, uma obra de arte, o que as outras não fizeram. Não tem esse apego: “Ai, mas a pele tão bonita, vai estragar”. Não tem isso. 

O tempo todo você está falando, de alguma forma, da possibilidade das pessoas se sentirem incluídas e benquistas. A beleza como uma forma de conseguir afeto.

Sociabilidade, afeto… É uma moeda de troca. É capital mesmo. Este é o lugar que o corpo vem ocupando, nas últimas décadas, na subjetividade contemporânea. Um lugar de capital e de investimento maciço de tempo e dinheiro. Por isso o corpo também é de classe, pois nem todo mundo vai ter. Esse é o viés mais perverso e injusto do corpo.  

Você acha que a beleza corporal como capital é mais enfatizada no caso do feminino ou do masculino? 

Da mulher, sem sombra de dúvida. Ainda é uma pauta feminina. A mulher é muito mais prisioneira do próprio corpo. Quando a gente pensa em todo o imaginário, e na constelação de valores associada à beleza: o sacrifício, a disciplina, a regularidade dos cuidados, a atenção aos detalhes… É sempre uma patrulha: a raiz branca do cabelo que não pode aparecer, a unha que não pode estar descascada, o peso…

É possível a gente pensar uma sociedade humana em que o corpo não tenha esse atributo de ser o cartão de visita, o recurso que garante uma inserção no mundo? 

Acho pouco provável. Sempre foi e será um elemento de distinção e de mapeamento. Você tem uma associação intrínseca da medicina e da medicina estética com a tecnologia e com um discurso onde a cura pra todos os males está na biologia. No passado, a psiquiatria estava toda voltada à escuta atenta do sofrimento psíquico; hoje,  ela está eminentemente voltada pro silenciamento da dor, através de remédios, e de uma correlação que se estabelece entre a fisiologia e o psiquismo. Certamente o corpo no futuro será mais andrógino, mais híbrido, mais atravessado pela tecnologia.

Qual foi o caso mais difícil que atendeu? 

Um dos mais graves foi o de uma adolescente obesa mórbida, uma melancólica grave. A menina tinha 15 anos e queria fazer uma cirurgia bariátrica. Os pais eram terminantemente contra. Essa menina ocupava na dinâmica familiar o lugar onde se concretizava toda a feiúra, tudo o que era abjeto. Os esqueletos dessa família eram cristalizados nela, metaforizados na gordura. Então, ela não podia emagrecer. Ela foi arrancada da terapia. Qualquer pessoa que tentasse ajudar essa menina a ter o mínimo de autonomia para poder fazer a cirurgia, eles acusavam de assassinato. Os pais vinham com o discurso: “Você tem de ajudar minha filha a ter força de vontade, a ter caráter, a conseguir se privar…”. A gordura era um defeito moral. E aí você vê a junção da patologia com o discurso da cultura. Ela não fez a cirurgia, os pais tiraram a menina da terapia, e ela morreu. Era uma família muito doente. 

Como viver nesse mundo do consumo afeta sua autoimagem, as suas escolhas? Como isso aparece na sua vida pessoal?

Aparece 24 horas por dia, considerando que eu estou nesse mesmo caldo cultural. Sou muito afetada pelas práticas, pelo mundo da dieta, estou sempre no fio da navalha. Administro uma economia dos meus prazeres, ou seja: quanto eu estou disposta a me sacrificar? Tem dia em que estou mais disposta, tem dia em que estou menos, e isso vai determinar o quanto vou malhar, o que vou comer, se vou transgredir na dieta, se vou usar roupa larga ou justa. Sendo psicanalista, busco ter uma consciência muito grande, para que eu não adoeça. A gente adoece psiquicamente quando não consegue transformar o desconforto constante numa narrativa, em palavras. Então, busco fazer escolhas conscientes: “Não vou comer brigadeiro porque quero caber naquela calça”. São escolhas, mas não da ordem de um martírio que me faça perder a relação preciosa com um corpo companheiro. Não nasci Gisele Bundchen, não vou ter 1,80 m e 50 quilos, mas será que a vida se resume a isso? Vou ficar em casa sem me olhar no espelho, cortar os pulsos e me tornar uma anoréxica? Ou será que tem uma saída para todos que não são giseles? Eu tendo a crer que sim. Se não, eu fechava a porta do consultório e iria vender coco na praia.

Entrevista concedida a Anabela Paiva