Os bem-vindos filhos da ciência

Publicado em Categorias Questões de Família
Rosie-Marie

Em 1978, casais inférteis que desejavam ter filhos não tinham outra opção além da adoção. Foi quando o nascimento da primeira “bebê de proveta” do mundo, a inglesa Louise Brown, tornou possível o sonho de gerar e dar à luz através da fertilização in vitro (FIV). Desde então, mais de 8 milhões de pessoas nasceram no mundo por meio da técnica. No Brasil, o primeiro bebê de proveta veio à luz em 1984; estima-se que mais de 500 mil crianças o seguiram. Em um país em que as mulheres vêm adiando a gestação e a longevidade aumentou, a opção pela FIV se torna cada vez mais comum: o número de ciclos de fertilização in vitro cresceu 168% entre 2011 e 2017, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Mas, apesar da sua popularidade, a geração in vitro exige um processo de avaliação psicológica e pode resultar em dramas éticos, como a busca dos filhos pelos doadores. Rose Marie Melamed, psicóloga paulistana, 61 anos, atende pacientes de uma das maiores clínicas especializadas de São Paulo e trabalha com o tema desde que recorreu à técnica para gerar suas duas filhas. Do seu consultório, acompanha o impacto da reprodução assistida na formação de novas e diversas famílias. E lembra a alegria com que ouviu, do filho de duas mulheres: “O seu trabalho é muito legal. As pessoas têm o direito de viver e ser felizes.”


Como homens e mulheres lidam com a descoberta da infertilidade? Qual o efeito disso sobre as pessoas?

Quando a pessoa quer ter filhos e não consegue, começa a se perceber um pouco diferente, a não ser que já existisse algum sinal anterior de que algo poderia estar errado. O que se pensa é: se todo mundo consegue, eu também deveria conseguir. A impossibilidade de conceber de maneira natural é percebida como uma incapacidade, uma deficiência. Normalmente, a mulher se sente mais cobrada, pois até há pouco tempo cabia a ela a responsabilidade de gestar e criar os filhos para que estes trouxessem bons frutos para a família. A mulher que não gestava era tida como “seca”, uma mulher punida por Deus, com problemas em relação à sua feminilidade. Como se não engravidasse porque não queria. Em relação aos homens, associava-se a infertilidade à impotência. O homem sexualmente potente acreditava – ou acredita ainda hoje – que não deveria ter problemas para fecundar uma fêmea. Não leva em conta, por exemplo, que vários outros fatores – como o meio ambiente, o uso de anabolizantes, as drogas, o uso do computador no colo – contribuem negativamente para o projeto de edificar a família com os próprios espermatozoides.

Tendo em vista esse contexto, o atendimento psicológico é parte importante do processo, tanto para que as pessoas possam aceitar o diagnóstico quanto para decidirem iniciar um tratamento de medicina reprodutiva.

Sim, e nem todos que vão à clínica de reprodução assistida aceitam esse atendimento. Nas clínicas particulares, não se impõe que os pacientes passem por uma avaliação psicológica, a menos que o médico identifique a necessidade disso. Normalmente, o médico sugere, mas o paciente pode não aceitar. A pessoa quer o filho, não quer saber se tem algum problema psíquico; ela já tem um problema físico. Existe o medo de que o psicólogo possa dar um laudo negativo. Por exemplo, no caso de um casal homossexual masculino. Eles não têm de lidar com a questão da infertilidade. Pela nossa legislação, precisam de três coisas: uma doadora de óvulos; um útero solidário, que é a pessoa que vai gestar e não pode ser a mesma que a doadora de óvulos; e a autorização para que esse útero solidário ocorra. Esse trio vai passar pela avaliação psicológica, que vai analisar o vínculo entre a mulher cedente e o casal; se o par tem uma relação estável; se existe um arranjo financeiro com a pessoa que está cedendo o útero; se ela tem consciência do processo pelo qual vai passar; qual é o vínculo que ela e o casal pretendem que essa pessoa tenha futuramente com a criança; se o casal tem uma rede social de apoio…

Conte um caso em que você tenha recomendado não prosseguir no tratamento de reprodução assistida.

Estou nessa área há mais de duas décadas. Foram muito poucos os momentos em que aconselhei que não se desse continuidade, mas houve algumas situações em que isso ocorreu, sim. Uma delas envolveu uma falsa relação entre os parceiros. Para eles era difícil admitir esse fato, então considerei que aquela criança já chegaria numa configuração pautada numa mentira. E, nesse mesmo caso, havia também um aspecto psicológico bem complicado, uma patologia que se tornou evidente a partir de algumas consultas: uma cisão com a realidade. Outro exemplo é o caso de um casal que havia perdido um filho num acidente e queria fazer reprodução assistida porque a mãe já tinha uma determinada idade. E eles gostariam que fosse um menino, para que tivesse o nome do rapaz falecido. Essa, naturalmente, seria uma relação fadada a não dar certo, pois essa criança teria seu próprio processo de individuação. Qual seria a identidade desse menino? Ele não seria aquele que morreu e, se ficasse vinculado à imagem do outro, seria uma relação muito patológica. De um modo ou de outro, a insatisfação permaneceria, para os que desejavam que ele fosse o morto, ou para ele, que não poderia vir a ser ele mesmo.

O que foi que você fez? Como responder a essa situação?

Durante um breve processo de psicoterapia, eles perceberam que a criança que eles iriam ter com o tratamento poderia não ser um menino. E que esse filho teria que ocupar um lugar dele, e não o do outro. O luto precisava ser vivenciado. Esperaram um tempo e depois fizeram o processo de reprodução assistida. Que, inclusive, foi com óvulo doado, pois a mulher não tinha mais condições de fazer com os próprios. Geneticamente, portanto, sabiam que o filho não teria as mesmas características do que havia falecido. Tanto que, ainda bem, nasceu uma menina.

Isso também traz um sentimento de frustração: não poder usar o próprio óvulo?

Traz. É preciso vivenciar o luto de ter um filho que não contém a sua carga genética. Para a mulher, esse drama é menor: a criança vai se desenvolver dentro dela, ela vai parir, amamentar. Para o homem, no caso da recepção de esperma, essa perda tem que ser vivenciada no nível simbólico.

Por que tantos preferem a reprodução assistida em vez de tentar a adoção?

Existe o pressuposto de que a criança adotada viveu um período de rejeição, que tem uma memória de não aceitação que vem desde o útero. Esse é um aspecto. O outro é que, no nosso contexto cultural, a mãe é aquela que dá à luz. Eu entendo que a pessoa queira gestar e evitar a fantasia do que essa criança pode ter sofrido. Existe um processo de elaboração relacionado à chegada dessa pessoa. Eu me transformo para recebê-la, inclusive fisicamente. E existe também o receio do desejo da família biológica conhecer a criança. No entanto, o mais importante é adotar os nossos filhos, mesmo aqueles que concebemos naturalmente. A gente vê muitos jovens, independentemente da classe social, que não foram adotados, no sentido amplo. Eles têm tudo, materialmente, mas não têm respeito pelo outro, não conseguem ser felizes, não conseguem criar o próprio espaço na vida.

E os filhos, quando crescem, querem saber quem são os doadores? Que soluções são dadas nesse caso?

Os bancos de doadores internacionais guardam os dados da pessoa que vendeu o esperma ou óvulo. Lá é possível saber muitas informações sobre características do doador. Quanto mais quiser saber, mais paga. Talvez até se consiga chegar à pessoa que possibilitou a gestação. No Brasil o processo é anônimo. É possível saber algumas características sobre a pessoa, como etnia, formação, idade, religião e hobbies. Mas não quem é. Ter acesso a essas informações é bom, porque reduz a ansiedade de que o médico tenha escolhido alguém que não tem nada a ver com a família. Quando o vínculo com os pais é bem estabelecido, essa fantasia é minimizada e, na maioria das vezes, desaparece. Mas se o vínculo não é bom, podem surgir dúvidas: “Será que com o outro, que doou, a relação seria melhor? Será que eu tenho irmãos? Será que eles vivem melhor que eu?”

Há alguma diferença na relação dos pais com os filhos gerados espontaneamente e os que resultam de procedimentos de reprodução assistida?

A gestação é igual a qualquer outra. Mas, muitas vezes, por serem pais mais velhos, eles têm um vínculo de maior proteção com os filhos que foram gerados através desse procedimento. Mas não necessariamente, pois a criança vai aprontar do mesmo jeito, como é normal em qualquer criança. Existem, sim, aqueles que enaltecem a criança, mas a maioria das pessoas não faz essa diferença.

A novela Segundo sol, da TV Globo, conta a história de um casal de lésbicas que recorre a um amigo, casado, como doador. O fato acaba gerando muito ciúme e conflitos nas duas famílias. Isso é frequente?

É. O doador tem de ser anônimo para evitar esse tipo de situação. Os vínculos ficam muito confusos para os adultos, e, consequentemente, para a criança que virá a nascer. Este é um dos critérios para dar seguimento ao tratamento. Eu não recomendaria este cenário. Imagine: eu doei o meu óvulo para minha irmã. Aquela criança é meu sobrinho ou é meu filho? Ou, se eu, que doei, vejo que a criança está sendo maltratada, posso falar: “Opa! Você me pediu pra doar o óvulo, e fica aí maltratando? O que é que está fazendo?” O anonimato é mais saudável.

Como você começou a trabalhar na área de reprodução assistida?

Eu já era psicóloga. Me formei em 80, casei e tentei ter filhos. Não consegui. O médico disse: “Desiste.” Mas eu comecei a estudar o processo de reprodução humana e fiz a minha tentativa de reprodução assistida. Não deu certo. Fiquei muito enlutada, porque não tinha dinheiro para fazer de novo. Mas eu tinha participado de uma reunião sobre o tema, com casais e profissionais, e o médico especialista tinha gostado da minha participação. Aí ele ofereceu: “Eu dou o tratamento e você faz parte da minha equipe.” Hoje eu trabalho para uma clínica de reprodução assistida e tenho o meu consultório. Tem muita gente que me viu falar, leu alguma entrevista sobre o assunto, e me procura. Não anunciam de cara que querem a reprodução assistida. Mas, depois dos primeiros encontros, contam que estão pensando em recorrer a esses procedimentos ou adotar. Tenho pacientes que atendi quando eram pequenos e voltam com demandas como: “Quero engravidar e não estou conseguindo”; “Quero congelar meus óvulos para engravidar futuramente”; ou “Estou com câncer, preciso me tratar, então, queria preservar minhas células germinativas, como é que eu faço?”.

E, afinal, conseguiu ter o filho que você queria?

Sim, tenho minhas filhas, tenho minhas filhas maravilhosas.

A terapia de reprodução assistida muitas vezes provoca o nascimento de gêmeos e trigêmeos. Esse é um risco calculado pelos casais?

Costumava-se colocar muitos embriões para garantir uma gestação, e isso ocasionava a gestação múltipla. Depois de um tempo, o Conselho Federal de Medicina determinou que o número de embriões transferidos seja de acordo com a idade da mulher. Quanto mais jovem, maior a possibilidade dela engravidar. Para mulheres até 35 anos, por exemplo, você pode transferir dois embriões. Um dos motivos desse limite por idade é que, com mais de uma criança, a gestação passa a ser de risco, pois o útero foi feito para um e não para dois. E nem todo mundo tem acesso a suporte no caso do nascimento de gêmeos, às vezes até de trigêmeos. Tem pessoas que, com receio de ter uma gestação múltipla, solicitam que seja transferido um único embrião.

A reprodução assistida é uma tecnologia que só está disponível para uma elite ou também existem alternativas para pessoas com renda mais baixa?

Existem, ainda que sejam poucas, na minha opinião. Aqui, em São Paulo, a gente tem alguns lugares que fazem esse trabalho, acho que no Rio também. Eu trabalho numa instituição que atende casais de baixa renda, o Instituto Sapientiae. Em São Paulo também tem o Hospital Pérola Byington, que é um centro de referência da saúde da mulher, e também faz o tratamento gratuito; e a Escola Paulista de Medicina da Unifesp. Esses locais têm critérios de renda e idade. Hoje existe uma batalha para que os planos de saúde arquem com o custo desse tratamento.

As técnicas de reprodução assistida abriram caminho para novos arranjos familiares. Casais homossexuais, ou mesmo indivíduos que não mantêm uma relação de casamento, podem ser pais ou mães.

Esses arranjos já existiam, de uma maneira… As pessoas adotavam, ou traziam filhos de outras relações, ou cuidavam dos sobrinhos. Mas, sim, a medicina abriu caminho para essa população. Com a dissociação entre o sexo e a gravidez, através da inseminação artificial e da fertilização in vitro, qualquer indivíduo juridicamente capaz – seja solteiro, viúvo, divorciado, homossexual, heterossexual, bissexual, transexual – pode se beneficiar das técnicas médicas.

Mas essa aceitação ainda não é uma postura de todos.

Ainda hoje em dia, um casal homossexual é, por vezes, olhado de maneira preconceituosa. Como acontece com tudo o que não é convencional. Eu já atendi alguns casais nessa condição, e são pessoas que cuidam de seus filhos de maneira fantástica. Em um congresso, ouvi a história do filho de um casal homossexual. O menino sofria bullying. Um dia, ele respondeu para o cara que o atormentava: “Olha aqui, eu tenho uma coisa que você não tem.” “O que é que você tem, moleque?”, respondeu o valentão. E ele falou: “Eu tenho duas mães maravilhosas, e você só tem uma.” Outro caso interessante é o filho de uma mulher homossexual. Ela não fez reprodução assistida, engravidou de um homem. Tinha uma companheira e, juntas, criaram o menino. Um dia, ele quis conhecer o pai. Para encurtar a história: quando conheceu, ele disse: “Esse cara não tem nada a ver comigo.” Formou-se, casou, tem filhos, e, já adulto, pediu que, na certidão de nascimento dele, fosse incluída a parceira da mãe. Ele me disse: “O seu trabalho é muito legal. As pessoas têm o direito de viver e ser felizes.”

E qual tem sido a percepção do uso da reprodução assistida por parte das religiões?

Algumas religiões não aconselham. Mas, hoje em dia, essa questão está um pouco menos pesada. Mesmo que a Igreja Católica diga não, quem quer vai atrás. Mas as pessoas fervorosamente religiosas ainda se limitam. Têm tanto receio que aceitam a condição de infértil, de não ter filhos, porque é melhor assim, é um presságio, vai ver que é para não ter mesmo. Por outro lado, a fé religiosa, a espiritualidade, também tem o efeito positivo: faz com que a pessoa acredite no seu tratamento, que possa conseguir melhorar, curar e conquistar.

Entrevista concedida a Anabela Paiva