“Vivemos uma cultura do aplauso”

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Quase todo mundo tem este item na sua lista de projetos irrealizados: organizar as fotos de família. No passado, as imagens de nascimentos, batizados, festas e viagens compunham álbuns que eram exibidos às visitas e herdados por filhos e netos. Hoje, a torrente contínua de fotografias que produzimos só ganha uma efêmera visibilidade nas redes sociais. As fotos se acumulam, esquecidas, em nuvens de computação e HDs. Claudia Linhares Sanz, ex-fotógrafa profissional, pesquisadora da Pós-Graduação em Comunicação e professora da Universidade de Brasília (UNB), já foi uma entusiasta dos álbuns de família. Hoje, aos 49 anos, dona de HDs repletos de imagens não ampliadas, ela explica o abandono dos álbuns pela sociedade contemporânea como parte de uma transformação ampla: “No contexto atual, as fotografias familiares não organizam uma narrativa coesa e não têm o fortalecimento de um sentimento de família como maior objetivo. Elas estão voltadas muito mais para um sentimento empreendedor”. Líder do grupo de pesquisa “Imagem, Tecnologia e Subjetividade” do CNPq, ela explica que as fotos pessoais e familiares tornaram-se meios de adensar a realidade e intensificar o prazer do mundo real pela aprovação nas redes sociais. “Até quando vamos aderir a essa cultura do aplauso?”, indaga.

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“A questão não é a tecnologia, é a pedagogia”

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A repetência, entendida por muitos como indício de qualidade na educação, é ineficaz e cara. A desigualdade começa na sala de aula, entre os alunos que se sentam no centro e os que ficam na periferia. O uso de tecnologia não implica, necessariamente, em uma melhora do ensino. Estes são alguns assuntos que o jornalista Antônio Gois tem abordado na sua coluna no jornal O Globo, em palestras e livros. Desde 1996 dedicado a escrever sobre Educação, Gois é diretor e fundador da Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca), que reúne mais de mil profissionais, e colaborador do Instituto Unibanco. É, ainda, autor dos livros Quatro Décadas de Gestão Educacional no Brasil (2018) e Líderes na Escola: o que fazem bons diretores e diretoras, e como os melhores sistemas educacionais do mundo os selecionam, formam e apoiam (2020). Carioca radicado em São Paulo, o jornalista de 46 anos também vivencia as questões da Educação como pai de Rosa, de 9 anos, e Francisco, de 12. Nesta entrevista, Gois discute o ensino a distância, a formação de professores, homeschooling, a importância do convívio com a diversidade nos ambientes escolares e os efeitos da polarização de opiniões sobre o ensino. “Transmissão de conteúdo é uma parte do processo educacional. Nós queremos muito mais do que isso”, define.

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“O desafio é trazer a sucessão para a vida real”

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O Direito e as sucessões estão no DNA da advogada Ana Luiza Maia Nevares. “Meu bisavô foi o primeiro inventariante judicial do Rio de Janeiro “, conta ela. Ao ingressar na faculdade, logo foi trabalhar com o avô, também advogado e dedicado à solução de conflitos sucessórios e de família. Hoje, aos 44 anos, a carioca é um dos principais nomes do escritório Bastos Tigre, Coelho da Rocha, Lopes e Freitas Advogados onde criou um departamento que concilia o Direito de Família e o das Sucessões. Doutora pela UERJ, Ana Luiza equilibra a banca com a vida acadêmica – é professora de Direito Civil e coordenadora do curso de pós-graduação em Práticas Jurídicas em Direito das Famílias e Sucessões da universidade PUC-Rio. “É muito bom poder fazer as duas coisas porque, ao atuar como advogada em muitos casos, consigo levar para o aluno a vida real. Por outro lado, a vida acadêmica me mantém sempre atualizada. Uma atividade complementa a outra”, diz Ana Luiza.  Autora do livro A função promocional do testamento (Renovar, 2009) e de dezenas de outros textos, ela ainda encontra tempo para se dedicar à diretoria do Instituto Brasileiro de Direito das Famílias (IBDFAM), na seccional do Rio. “Se achamos que é preciso mudar o Direito e a sociedade, precisamos atuar através das instituições. É através delas que conseguimos chegar próximo aos poderes capazes de mudar alguma coisa.” 

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Começa em 2020 a escola do século 21

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Um dos efeitos colaterais da pandemia do Covid-19 é a transformação das escolas, acredita Patricia Konder Lins e Silva. Uma das diretoras da Escola Parque, na Zona Sul do Rio de Janeiro, a pedagoga carioca constata que a necessária transformação das instituições de ensino finalmente começou. “O vírus fez com que a humanidade acordasse”, diz, apostando que a adoção de plataformas online de aprendizado e o estabelecimento de novas relações entre alunos e professores vieram para ficar. Autora do livro Inteligência se aprende (Casa da Palavra, 2011), Patricia Konder prevê que nos próximos anos muitas escolas passarão a adotar um modelo híbrido de ensino, combinando aulas presenciais e remotas. Uma mudança que poderá anunciar transformações bem mais profundas, como a substituição do ensino de conteúdos pelo aprendizado a partir de problemas. Se a pandemia representou uma catástrofe para a maior parte das instituições públicas, no caso das escolas privadas, as mudanças ocorridas no ano de 2020 podem ser o anúncio de uma nova era na educação.

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Jovens: supernutridos de informação, subnutridos de vivências

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“Keep calm, work hard and stop the mimimi.” A frase é uma das favoritas nas palestras do paulista Sidnei Oliveira, autor de livros sobre o desenvolvimento profissional e pessoal de jovens, como  “Geração Y”, “Conectados, mas muito distraídos” e “Cicatrizes – O desafio de amadurecer no século 21”. Formado em publicidade, Sidnei deixou uma carreira de executivo em instituições financeiras nos anos 1990 para surfar a primeira onda da internet no Brasil, criando os sites Achei  e Zeek. Depois de vender as empresas para a estrangeira Star Media, e de um período como executivo para a E-Financial Tecnologia, ele decidiu se dedicar à formação de executivos e jovens. Fundador da Escola de Mentores, o consultor de 57 anos diz que os jovens de hoje vivem em “bolhas de ilusão” e alerta para os prejuízos de uma educação excessivamente protetora: “Os pais  subestimam a capacidade dos filhos. Têm um medo danado de lhes dar autonomia”.  

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O futuro no presente

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Lançado em 1968, o filme 2001 – Uma odisseia no espaço fascinou audiências com um computador capaz de conversar naturalmente, reconhecer imagens e sons e assumir o controle da espaçonave. Meio século depois, parece que 2001 finalmente chegou. A tecnologia de Aprendizado de Máquina permite que computadores sejam capazes de dialogar com seres humanos, dirijam carros, influenciem relações amorosas e até a aprovação de um empréstimo. A chegada dos assistentes virtuais,  dispositivos com alto-falantes ligados à internet, que obedecem a comandos de voz, anuncia uma época em que será normal falar com a própria casa, através da Internet das Coisas. Uma mudança que já começou no apartamento do carioca Pedro Dória, na Gávea, Zona Sul do Rio de Janeiro, onde as luzes são desligadas sem tocar o interruptor. Palestrante e escritor, desde 1994 Dória escreve sobre internet e computadores. Em 1995, lançou o primeiro livro sobre a rede no Brasil, intitulado “Manual para a internet”(Revan). Desde então, assinou outras seis obras, três delas sobre a história brasileira. Colunista dos jornais Globo e Estado de S. Paulo e da rádio CBN, o jornalista de 45 anos vê com entusiasmo, mas também com cautela, o impacto do avanço da tecnologia no trabalho, na economia, na política e nas relações. E recomenda aos pais que priorizem ensinar aos filhos a tolerância às mudanças: “A cada 10, 15 anos, o mundo vai ser completamente diferente”. 

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Mindfulness: uma proposta para sair do automático

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Mindfulness. Coloque a palavra no Google, e ele responderá com 116 milhões de resultados. O número dá uma ideia do tamanho da popularidade da técnica, assunto de  livros, centros dedicados ao bem estar, cursos em empresas e escolas. Criada em 1979 pelo professor americano John Kabat-Zinn, da Universidade de Massachussets, nos EUA, a prática tem como objetivo a redução do estresse e o desenvolvimento da capacidade de superar dores e desafios cotidianos e é cada vez mais popular nos EUA e na Europa, onde os aplicativos Headspace e Calm já foram baixados por 38 milhões de usuários. No Brasil, a técnica, também chamada de atenção plena, se dissemina e começa a chegar a escolas, como a Esfera, em São Paulo, e a Britânica, no Rio, através do trabalho de instrutores como a paulista Marina Neumman, 53 anos. Engenheira eletrônica, Marina trabalhou em multinacionais na área de Tecnologia até que percebeu nos programas de minfulness um novo caminho profissional. Especialista em Mindfulness pela Escola Paulista de Medicina/UNIFESP, com cursos de especialização da técnica aplicada à oncologia, educação e liderança corporativa, ela dirige o Instituto Latino Americano de Mindfulness e Bem Estar e garante: “O mindfulness não é uma onda passageira”.

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A moral da magreza e a pastoral do suor

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Vivemos numa cultura bulímica, que convida ao excesso, e depois exige o seu expurgo

A mãe aflita e seu filho gordinho, que sofre bullying na escola. A bailarina, muito magra, obcecada pela dieta. O homem forte, que se vê franzino; a magra, que acredita ser  gorda. São exemplos dos que sofrem o que a psicanalista Joana Novaes chama de doenças da beleza. Cada vez mais frequentes, elas são produto de uma cultura que valoriza a comida como símbolos de status, alegria e afeto, mas que também impõe uma moral da magreza, exigindo corpos ascéticos. No Brasil, 4,7% da população apresenta algum transtorno alimentar.  Aos 42 anos, pós doutora em Psicologia Médica e Social, a psicanalista carioca é especialista em transtornos alimentares e coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social (LIPIS) da PUC-Rio. Consultora da marca Dove, ela é autora de O intolerável peso da feiúra – Sobre as mulheres e seus corpos e Com que corpo eu vou? Sociabilidade e usos do corpo nas mulheres das camadas altas e populares, além de vários artigos.

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Justiça fora do tribunal

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“Vara de Família não é o lugar para se discutir ressentimento”

O site da advogada Olivia Furst tem na home fotos de momentos familiares e frases de Gandhi e Caetano Veloso (“Eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem, apenas sei de diversas harmonias bonitas, possíveis e sem juízo final”). No seu escritório, em uma casa charmosa de Botafogo, uma sala cheia de brinquedos mostra que as crianças são bem vindas. É ali que a carioca de 42 anos exerce a advocacia colaborativa, ramo ainda pouco conhecido da profissão. A especialidade tem uma peculiaridade: dispensa os embates nos tribunais. Nas negociações de divórcio e partilhas que costuma assessorar, Olivia assina um compromisso de não litigância com o advogado da outra parte. Assim, os dois profissionais e as pessoas envolvidas podem negociar com liberdade o melhor acordo possível.

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Os bem-vindos filhos da ciência

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Em 1978, casais inférteis que desejavam ter filhos não tinham outra opção além da adoção. Foi quando o nascimento da primeira “bebê de proveta” do mundo, a inglesa Louise Brown, tornou possível o sonho de gerar e dar à luz através da fertilização in vitro (FIV). Desde então, mais de 8 milhões de pessoas nasceram no mundo por meio da técnica. No Brasil, o primeiro bebê de proveta veio à luz em 1984; estima-se que mais de 500 mil crianças o seguiram. Em um país em que as mulheres vêm adiando a gestação e a longevidade aumentou, a opção pela FIV se torna cada vez mais comum: o número de ciclos de fertilização in vitro cresceu 168% entre 2011 e 2017, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Mas, apesar da sua popularidade, a geração in vitro exige um processo de avaliação psicológica e pode resultar em dramas éticos, como a busca dos filhos pelos doadores. Rose Marie Melamed, psicóloga paulistana, 61 anos, atende pacientes de uma das maiores clínicas especializadas de São Paulo e trabalha com o tema desde que recorreu à técnica para gerar suas duas filhas. Do seu consultório, acompanha o impacto da reprodução assistida na formação de novas e diversas famílias. E lembra a alegria com que ouviu, do filho de duas mulheres: “O seu trabalho é muito legal. As pessoas têm o direito de viver e ser felizes.”

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